Ataques a muros marcam busca de adrenalina e 'status'

Com origem na periferia, pichadores se reúnem no centro para falar sobre aventuras arriscadas nas ruas da cidade

O Estado de S.Paulo

18 Março 2012 | 03h06

A chuva cai forte na noite de quinta-feira, deixando ensopados aqueles que se arriscam pelas ruas de São Paulo. No coração do centro, ao lado do Largo Paiçandu, espremidos embaixo de toldos, cerca de 150 pichadores se encontram para trocar autógrafos, compartilhar histórias e combinar as próximas pichações nas paredes da cidade.

São desde jovens de 15 anos até quarentões - estes, representantes da geração do fim dos anos 1980, que definiu a estética de letras retas e compridas que marcariam o estilo das fontes paulistanas. As letras receberam influência do punk e seguiram a paisagem da cidade, com formatos que se contrapõem ao estilo curvilíneo das letras cariocas.

Se os moradores das regiões mais centrais de São Paulo se isolaram nos shoppings e condomínios nos anos 1980 e 1990, nesse mesmo período, os jovens das periferias se jogaram nas ruas em busca de autopromoção e adrenalina. Corriam o risco de apanhar da polícia, de ser processados e de morrer. "Valeu a pena porque, quando eu chegava numa festa, se tinham 15 mulheres, eu pegava a mais bonita, porque meu nome estava nos muros", resume Julio Cesar, de 38 anos, conhecido como Tortura.

KPTA (se lê capeta), também da geração dos anos 1990, explica que os pichadores são espécies de guerrilheiros. Agridem esteticamente a cidade que também é violenta. "A gente chegava a andar 50 quilômetros em uma noite para pichar. É um mundo à parte, e aqui você é reconhecido pelo que faz. Um tipo de reconhecimento que você não tem nem da família."

Representante da nova geração, Kanastra, de 26 anos, explica que, atualmente, os pichadores que escalam as janelas dos edifícios pelo lado de fora estão entre os mais valorizados dentro do grupo. Chegam a subir mais de dez andares, arriscando a própria vida. "O desafio é mais psicológico do que físico."

Aceitação. Apesar de fazerem questão de preservar a fama de malditos e de se recusarem a aderir à estética de bom gosto e colorida dos grafiteiros, os pichadores também passaram a ser tolerados pela cidade - um movimento ao qual eles resistem. Resistência, aliás, semelhante à dos gangsta-rappers de São Paulo, que evitam entrevistas.

O pichador Djan Ivson, conhecido como Cripta, por exemplo, fez parte do grupo que atacou o Centro Universitário Belas Artes e a Bienal, em 2008. Nos anos seguintes, foi convidado para mostrar seu trabalho em Paris e Berlim, expôs na Bienal em São Paulo e voltou a pichar - uma obra de Nuno Ramos. Atualmente, mostra no Museu Brasileiro da Escultura (MuBE) traz um vídeo com suas ações.

Na quinta-feira, tomava chuva com os demais pichadores, como se tentasse evitar o risco de ser acusado de trair o movimento depois da fama. Manteve afiado o discurso ao explicar a postura do pichador: "Não adianta tentar acordo, porque a gente não cumpre. A atitude da pichação tem de ser libertária."

Atualmente, Ivson também dá palestras em faculdades e faz parcerias com outros artistas paulistanos. Com Gabriel KRT, picha frases do grupo de rap Facção Central das paredes, como: "Seu trampo e seu estudo brecam o cano da PM".

Gabriel, aliás, também tem trabalhos paralelos em que picha com Daniel Scandurra poesias de Augusto de Campos. O próprio concretista sugeriu um termo para o que fazem: "poetixação". "Enquanto todos perguntam se pichação virou arte, creio que a pergunta é se a arte virou pichação. A arte questiona problemas de sua época e o problema de hoje é a cidade." / B.P.M.

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