'Atacadão de peças' faz crime crescer

Entre o desmanche e o ladrão, surgiu a figura do atravessador; mercado negro utiliza pequenas células, o que dificulta o combate

O Estado de S.Paulo

18 Março 2012 | 03h07

Em março, 26 pessoas foram presas em flagrante em 14 desmanches ilegais desbaratados pela Divisão de Investigações sobre Furtos e Roubos de Veículos e Cargas (Divecar), do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). No ano passado, foram estourados 82 "buracos". Mesmo assim, é um tipo de crime que não para de crescer. Nos dois primeiros meses deste ano, o número de carros roubados já é 14,06% maior do que no mesmo período de 2011.

A dinâmica do crime surpreende a polícia. Depois de uma debandada dos desmanches ilegais para o interior, a capital volta agora ao centro das atenções. A estrutura do crime, porém, mudou, e é cada vez mais difícil interromper o ciclo.

No passado, as lojas de autopeças que atuavam ilegalmente montavam seus próprios desmanches, os pequenos "buracos", com seus "ladrões de confiança". Quando eram descobertas, o esquema caía por inteiro. O sistema era inseguro para os envolvidos, e eles não demoraram a descobrir uma forma de se manter mais protegidos, por meio do crime organizado.

Tal como as grandes redes de terrorismo internacional, atualmente as quadrilhas de roubo de carros são segmentadas, atuam em células. Os integrantes não se conhecem. Dessa forma, o papel do desmanche ilegal também mudou. Ele funciona agora como um grande "atacadão de peças", que fornece de acordo com a demanda das lojas. "Se um deles cai, o restante da cadeia continua a funcionar normalmente", disse o delegado Norberto Moraes, divisionário da Divecar.

Leilões em que peças de veículos sinistrados são parcialmente aproveitadas também dificultam o trabalho policial. Quem age desonestamente está interessado apenas na nota fiscal de compra da sucata, que pode justificar a presença de partes de carros roubados, sem identificação, em muitas lojas que atuam ilegalmente.

Periferia. O roubo de veículos avança ainda para os bairros mais afastados do centro da capital. Entre os três distritos com o maior número de casos registrados pela polícia, dois estão nos extremos das zonas sul e leste (Jardim Miriam e São Mateus, respectivamente) e um deles distante da região central (Jabaquara). São nesses lugares que se concentram também os carros populares, bastante visados pelos bandidos por serem mais facilmente inseridos no mercado ilegal, com grande demanda.

O próprio consumidor muitas vezes incentiva, conscientemente ou não, o crime. "O sujeito quer ter o veículo em dia, mas não tem dinheiro suficiente para comprar peças em uma concessionária, por exemplo. Então é oferecida para ele uma peça por um preço bem mais baixo do que o valor de mercado. Compra e acaba alimentando uma cadeia da qual ele próprio pode ser vítima", disse o delegado Marcelo Bianchi, da 3.ª Divecar.

O número de golpes contra as seguradoras também se destaca dentro dos crimes envolvendo veículos, principalmente no início do ano. "Em janeiro e fevereiro, tem o IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores), o seguro e muita gente acaba tentada a dar o golpe", disse o delegado Antonio Sales Lambert Neto, que atua na 1.ª Divecar.

Seguro. Diretor executivo da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Neival Freitas diz que apenas 20% da frota nacional, ou 13,5 milhões de veículos, tem apólices. "É um índice muito baixo de penetração."

Por isso, ele questiona também o senso comum de que o aumento na insegurança favorece as seguradoras. "Temos um grande interesse em que sejam reduzidos roubos, justamente para poder diminuir o valor do seguro e expandir a base de clientes", afirma. Ele diz que, em relação aos leilões, as seguradoras seguem a legislação em vigor. /MARCELO GODOY e WILLIAM CARDOSO

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