Eugênio Goulart/AE - 17/07/2007
Eugênio Goulart/AE - 17/07/2007

Associação de vítimas de voo da TAM descarta culpa de pilotos

Segundo relatório da Aeronáutica, aceleradores estavam em posição errada; acidente matou 199 em 2007

estadao.com.br,

27 de outubro de 2009 | 18h25

A Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do voo TAM JJ 3054 (Afavitam) se mostrou surpresa com a conclusão do relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre o acidente, revelada pelo Estado nesta terça-feira, 27. Segundo o documento, oito fatores contribuíram para a tragédia. Simulações do maior desastre aéreo do País feita pelo órgão indicaram posição errada de manetes (aceleradores) durante a aterrissagem e revelam falhas no sistema de alerta da aeronave. "Não acreditamos na culpabilidade dos pilotos, porque não há provas (...) e os outros fatores do acidente?", indagou Roberto Gomes, assessor de imprensa da Afavitam, ao estadao.com.br.

 

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"Os pilotos fazem parte das 199 estrelas que estavam no voo. Eles eram dois profissionais", acrescenta ele, que teve seu irmão morto na tragédia. Como os manetes se encontrava muito destruído pelo fogo e pelo impacto da queda, não foi possível determinar com 100% de certeza em que posição as alavancas de potência estavam no momento em que o Airbus A320 varou a pista do Aeroporto de Congonhas.

 

O relatório ainda não foi oficialmente divulgado. O Setor de Comunicação Social da Aeronáutica informou que o texto está em fase final de elaboração e deve ser concluído este ano. "A coisa que os familiares mais querem agora é o resultado do relatório da Cenipa", finalizou Gomes.

 

PRINCIPAL HIPÓTESE

Como o único indicativo de que os pilotos deixaram os manetes fora da posição recomendada - um na posição de aceleração e a outro em frenagem - veio da caixa-preta, o Cenipa resolveu estudar as duas hipóteses mais prováveis: falha no sistema de controle de potência do jato, que teria transmitido ao motor informação diferente da que indicava o manete, ou um erro dos pilotos Kleiber Lima e Henrique Stefanini di Sacco. A segunda hipótese, diz o Cenipa, é a mais provável "uma vez que é elevada a improbabilidade estatística de falha no sistema de acionamento" dos manetes.

 

OS OITO FATORES CONTRIBUINTES

Instrução: A formação teórica dos pilotos usava exclusivamente simulações em computador, o que não garantia a boa formação individual de cada um. Além disso, a formação do copiloto, Henrique Stefanini di Sacco, contemplou apenas um determinado tipo de certificação, que se mostrou insuficiente para enfrentar a situação. Havia a percepção entre os tripulantes, aliás, que o treinamento vinha sendo abreviado.

Coordenação de cabine: O monitoramento do voo não se mostrou adequado, uma vez que a tripulação não percebia o que acontecia, o que impediu correções.

Pouca experiência do piloto: Apesar de sua larga experiência em grandes jatos comerciais, Di Sacco tinha apenas 200 horas de voo em jatos A320.

Supervisão gerencial: A companhia aérea permitiu que a tripulação fosse composta por dois comandantes, mas Di Sacco havia realizado só um treinamento específico. A falta de coordenação entre os setores da empresa - especialmente Operações e Treinamento - levou a falhas na formação dos pilotos.

Falta de percepção: A configuração e o funcionamento dos manetes não ajudaram os pilotos na identificação de dificuldades. E essa situação foi agravada pela falta de um alarme para indicar o erro na posição do instrumento.

Perda de consciência situacional: Surgiu como consequência da falta de percepção dos pilotos. A automação da aeronave também não ofereceu aos tripulantes sinais de perigo.

Regulação: Embora a Anac proibisse a operação com reverso (freio aerodinâmico) inoperante, a exigência só foi normatizada em 2008. Isso impediria o pouso com pista molhada.

Projeto: Ficou constatado que é possível possível pousar com os manetes do A320 em posições distintas, sem que nenhum dispositivo alerte os pilotos.

 

(com Bruno Tavares e Fausto Macedo, de O Estado de S. Paulo)

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