Assassino de Glauco premeditou morte

Em depoimento à polícia, Carlos Sundfeld Nunes diz que estava sob 'inspiração divina'

Josmar Jozino, O Estadao de S.Paulo

17 Março 2010 | 00h00

Enviado especial em Foz do Iguaçu

O estudante Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos, confessou ter assassinado o cartunista Glauco Vilas Boas, de 53 anos, e seu filho Raoni, de 25, em depoimento prestado ontem na sede da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, no Paraná. Nunes disse que matou o cartunista e o filho porque teve uma "inspiração divina" e afirmou que premeditou os crimes. O advogado de defesa, Gustavo Badaró, se recusou a falar com a imprensa.

 

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Nunes foi ouvido durante três horas pelo delegado Archimedes Cassão Veras Júnior, do Setor de Investigações Gerais (SIG) da Polícia Civil de Osasco. O Jornal da Tarde conversou com a equipe de policiais deslocados de Osasco para o Paraná às 19h30 de ontem, momentos após o check-in para o voo 3168, da TAM, no Aeroporto de Foz do Iguaçu, que trouxe os policiais de volta a São Paulo e pousou às 21h50 no Aeroporto de Cumbica. Além de Veras Júnior, o investigador Júlio e a escrivã Gláucia ouviram o depoimento do estudante.

Ao delegado, Nunes voltou a dizer que planejava levar o cartunista para a casa da mãe. Mas a ação teria sido frustrada pela fuga do rapaz que o levou até a residência de Glauco, Felipe Iasi. O delegado afirmou que essa versão será reconsiderada após o rastreador via satélite do veículo de Iasi e do celular de Cadu serem analisados.

"Ele (Nunes) é perigoso, se altera no depoimento, dá impressão que não pode ser contrariado", disse o delegado. Veras Júnior afirmou ainda que o estudante tem o perfil de psicótico, é extremamente inteligente, detalhista e repara em tudo. Para o delegado, o fanatismo religioso pode ter levado Nunes a abandonar os estudos por repetidas vezes.

A arma do crime, uma pistola 7,65 milímetros, foi comprada na periferia em São Paulo, onde o criminoso fazia caridade (mais informações nesta página) e onde também comprava entorpecentes. No entanto, não quis revelar à polícia quem forneceu a arma, apreendida pela PF para perícia.

Isolamento. Antes do depoimento, o estudante estava isolado na cela 3 do Setor Feminino da carceragem da PF em Foz do Iguaçu. Na madrugada de anteontem, os outros presos encarcerados na unidade disseram que iriam matá-lo porque ele não parava de afirmar que é Jesus Cristo. Nunes passou a noite de ontem, porém, em completa tranquilidade na cadeia. "Ele está mais calmo. Quando chegou aqui só falava coisas desconexas", disse o delegado Marcos Paulo Pimentel.

O xadrez em que Nunes está preso tem 6 metros quadrados, fora o banheiro, cujo tamanho é de 2 metros de comprimento por 1 metro de largura. Segundo o agente federal Sidney, o estudante não sai da cela "nem mesmo para o banho de sol".

Nunes passa a maior parte do tempo deitado em um dos dois beliches de concreto da cela, assistindo à televisão. O aparelho não fica no xadrez, mas no alto da parede da galeria. O criminoso ficou até ontem com a roupa do dia em que foi preso, quando o advogado levou a ele uma calça e uma camiseta. Até o início da noite de ontem, ele não havia recebido parentes.

Além dos presos, Nunes também ganhou a antipatia dos policiais federais que o guardam em Foz e estão revoltados com sua atitude. Dizem que o estudante não tem problemas mentais, mas sabe o que faz e aparenta ser doido por causa do uso excessivo de drogas.

Ferido. O agente federal ferido por Nunes com um tiro no braço na Ponte da Amizade, no fim da noite de domingo, vai ser obrigado a colocar platina no braço direito. A bala atingiu o osso. "Ele quase morreu. Ninguém fala disso nem os direitos humanos", desabafou um colega do agente, que pediu para não ter o nome revelado.

Ao todo, o estudante deverá responder por nove crimes. Em São Paulo, ele deve ser indiciado por duplo homicídio, tentativa de homicídio, lesão corporal dolosa e roubo. Já no Paraná, Nunes vai responder a processo de tentativa de homicídio, resistência à prisão, porte ilegal de arma e porte de entorpecentes.

O delegado chefe da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, José Alberto Iegas, disse que o depoimento de Nunes sobre os crimes cometidos no Paraná tem duas páginas. "Ele confessou o assassinato do cartunista e do filho dele. Mas, no interrogatório, não entramos muito na esfera do que ocorreu em São Paulo", acrescentou o policial.

Reconstituição. O delegado Marcos Paulo Pimentel afirmou que no fim desta semana deve fazer a reconstituição do crime. Ele ainda tem dúvidas sobre quantas vezes Nunes passou pela Ponte da Amizade e também se o atirador tentou matar o policial federal.

Em relação à transferência do estudante para o Presídio Federal de Catanduvas (PR), Pimentel explicou que essa é apenas uma hipótese. Até agora, a Justiça Federal do Paraná não decidiu se o estudante será removido para São Paulo.

CRONOLOGIA

O caminho do acusado

12 de março

Crime em Osasco

Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos, invade a chácara do cartunista Glauco Vilas Boas, em Osasco, na Grande São Paulo, e dá quatro tiros nele e no filho Raoni. Os dois morrem

14 de março (0h30)

Roubo de carro de fuga Armado, Nunes domina um administrador de 51 anos na Rua Doutor Queiroz Guimarães, na zona oeste, e rouba o Fiesta dele, além de R$ 200, um celular e um cartão. O estudante vai para a Rodovia Régis Bittencourt

14 de março (23 horas)

Captura na fronteira No Paraná, Nunes tenta atravessar a Ponte da Amizade, mas é interceptado pela Polícia Federal. Após troca de tiros, na qual feriu um agente, é capturado. Uma hora antes, furou bloqueio da Polícia Rodoviária em Santa Terezinha do Itaipu, a cerca de 30 quilômetros da fronteira com o Paraguai

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