Jarbas Oliveira - 8/8/2005
Jarbas Oliveira - 8/8/2005

Assalto milionário vai parar no cinema

6 anos após furto do BC, só R$ 20 milhões dos R$ 164 milhões foram recuperados

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2011 | 00h00

Deusimar já tinha a "fita". Sabia que Alemão procurava um alvo lucrativo para assaltar, angariou informações com um amigo, ex-vigia do Banco Central (BC) de Fortaleza, sobre o cofre e seu conteúdo e marcou uma reunião num bar da capital cearense. Alemão passou então a recrutar a equipe que participaria do maior assalto a banco do Brasil, em 5 de agosto de 2005. Os 36 acusados de envolvimento direto no crime levaram R$ 164,8 milhões da caixa-forte. E sua história inspira o filme que estreia na sexta-feira, Assalto ao Banco Central.

Inspira apenas. Os personagens originais insistem que a realidade, como não raro, é mais surpreendente. A versão aqui relatada é a do delegado da Polícia Federal (PF) Antonio Celso dos Santos, que atuou no caso do segundo ao último dia de investigação, quando o entregou à Justiça. Hoje, ele é adido da PF brasileira no Paraguai, mas ainda guarda 27 caixas com cópias das escutas, dos relatórios, do material de quase quatro anos de investigação. "Também lembro muita coisa de cabeça", diz.

Alemão, ou Antonio Jussivan Alves dos Santos, é cearense de Boa Viagem. Luiz Fernando Ribeiro, o Fernandinho, e Moisés Teixeira da Silva, o Cabelo, são de São Paulo. Os três são tidos como os cabeças de grupos de 12, que se revezavam em três turnos na escavação do túnel partindo de uma casa alugada a 80 metros do banco. O imóvel foi transformado em uma empresa de grama sintética, o que evitaria suspeitas sobre os sacos de terra que dali sairiam. Quem abriu a empresa foi Mineiro (Jorge Luiz da Silva), falastrão que fez cursos sobre o assunto, distribuiu bonés da Grama Sintética à vizinhança e ficou amigo até do dono da sauna gay do outro lado da rua.

Foram três meses e meio de escavação. O assalto estava planejado para o dia 30 de julho, quando um carnaval fora de época aconteceria na cidade. Problemas técnicos adiaram a operação para 5 de agosto. "Eles não sabiam quanto dinheiro havia ali, achavam que seria uns R$ 20 milhões. Ainda sobrou muito. Não levaram mais por falta de tempo", conta Santos. O cofre estava recheado de notas não rastreáveis, recolhidas para que se avaliasse se elas deveriam voltar à circulação. Disso eles sabiam.

Cada um fugiu da casa por conta própria. Nos depoimentos que deram mais tarde, os ladrões disseram ter dividido a grana em quantias iguais, de cerca de R$ 5 milhões. Mas é sabido, por exemplo, que Fernandinho financiou a construção do túnel, algo em torno de R$ 400 mil. O que se pode deduzir é que, ao menos por um tempo, todos acreditaram que o crime compensa.

Inteligência. Os bandidos evaporaram tão rapidamente quanto as notas de R$ 50. Os 36 se espalharam por diversos Estados do País e Santos dividiu a investigação em células, uma para cada parte do bando. Foi prendendo um a um, incluindo os laranjas usados para comprar propriedades com o dinheiro roubado, sem dar um tiro. "Até os marginais gostam dele", diz Isaac Minichillo, advogado de quatro dos acusados. "Ele foi direito, não agrediu ninguém, conseguiu as confissões no papo." Bandido e advogado gostaram do delegado. Não é todo dia.

Na apuração, Santos ainda frustrou dois assaltos parecidos, um em Porto Alegre, outro em Maceió, que contavam com veteranos de Fortaleza. Apontou 134 envolvidos com o crime-mãe. Mas recuperou apenas cerca de R$ 20 milhões em espécie. "Não há esperança de recuperar tudo, porque, na pressa de se livrar do dinheiro, os ladrões compravam imóveis a um valor muito acima do mercado, que o leilão judicial não atinge", diz Santos, que estima ter recuperado cerca de 25% do total.

Alemão foi preso em Taguatinga (DF), numa loja de pneus, em 25 de fevereiro de 2008 - 931 dias depois que Santos assumiu o caso. "Agora, vou escrever um livro com a verdade sobre o assalto ao BC e termino no fim do ano."

Defesa. O advogado Isaac também está escrevendo a sua verdade. Seu livro será baseado nas confissões de Moisés, o Cabelo, e Jean Ricardo, dois réus confessos. "Moisés só se envolveu no assalto para pagar extorsões de policiais que ele já vinha sofrendo depois de outros crimes. Mesma coisa o Jean." Moisés está condenado a 14 anos de prisão e Jean, a 8 anos e meio.

O irmão de Isaac, Eliseu Minichillo, defende outros 7, incluindo Alemão - Fernandinho foi assassinado em outubro de 2005 por policiais que lhe extorquiam os milhões conseguidos em Fortaleza. Alemão também é réu confesso, cumpre sentença de 25 anos e 10 meses no Presídio Federal de Catanduvas (PR), mas nega que tenha sido o líder da quadrilha. Nenhum deles se envaidece mais por ter participado do maior assalto a banco do Brasil. Por causa da notoriedade, acreditam ter recebido penas mais pesadas do que outros assaltantes. "Além disso, ficaram sem nada depois das seguidas extorsões de policiais", completa Eliseu. No fim, não compensou.

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