Assalto de cinema ao trem pagador

Ladrões explodiram trilhos e levaram 12 milhões de cruzeiros, no Rio, em ação que virou filme

Rose Saconi, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2010 | 00h00

Eram 8h30 do dia 14 de junho de 1960 quando cinco homens mascarados armados de metralhadoras e revólveres atacaram o trem pagador da Central do Brasil, no km 71, na chamada Curva da Morte, próximo da estação de Japeri, no Rio. O trem transportava o pagamento de mais de mil ferroviários dessa e de outras estações.

Não era pouca coisa: 12 milhões de cruzeiros, a moeda corrente da época. Daria para comprar 108 fuscas, modelo do ano, zero-quilômetro, informou o Estado na página policial. "Toda a polícia carioca está mobilizada para a captura dos malfeitores", dizia a notícia.

O dinheiro estava dentro de uma caixa de madeira, guardada por um funcionário, o pagador Cícero de Carvalho, e dois auxiliares. Para facilitar o ataque, os assaltantes dinamitaram os trilhos e fizeram descarrilar a locomotiva e o vagão.

Os bandidos entraram no trem disparando. Mataram um funcionário da ferrovia, Francelino Paulino Correa, que estava de folga naquele dia, e feriram quatro empregados. Pegaram a caixa de madeira com dinheiro e fugiram numa caminhonete Ford, de cor creme, segundo testemunhas.

O assalto surpreendeu até os mais experientes policiais, pela audácia e precisão com que foi executado. No dia seguinte, a imprensa brasileira e internacional repercutiu as poucas informações da polícia, que apenas constatou o fato, mas admitiu que não tinha nenhuma pista dos ladrões e do dinheiro roubado.

A promessa era de que em pouco tempo o caso seria totalmente esclarecido. Uma semana depois, diante da falta de avanços na investigação, o Estado circulou com a seguinte manchete: "Nada conseguiu a polícia apurar de concreto sobre o assalto ao trem pagador da Estrada de Ferro Central do Brasil."

Cinema. O episódio ficou famoso e acabou rendendo um filme que marcou época no cinema nacional. Assalto ao Trem Pagador, de 1962, dirigido por Roberto Farias, teve no elenco seu irmão Reginaldo Farias e Grande Otelo. O filme causou impacto pela forte dose de realismo. Os tiros foram de verdade. O vagão usado foi o mesmo do assalto. Na filmagem apareceram até os furos das balas de 1960 e muitos dos atores coadjuvantes foram os próprios funcionários que conduziam o trem no dia do crime.

Rodado em 62 dias, ao custo de 18 milhões de cruzeiros (mais da metade do que fora roubado do trem pagador, dois anos antes), o filme é considerado um dos precursores do Cinema Novo, movimento que procurava dar um tratamento de choque a temas populares brasileiros.

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