As 'vozes de ouro' sob os viadutos da cidade

Na semana em que um ex-radialista sem-teto foi descoberto nos EUA, o 'Estado' encontra nas ruas da capital paulista cinco artistas que tentam refazer a vida

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2011 | 00h00

Depois de 32 anos sem cantar, Maria Helena, de 62, voltou a soltar a voz no momento mais dramático de sua vida. Era 2008. Dois anos antes, ela tinha sido despejada sem aviso prévio do estacionamento da Rua da Consolação onde trabalhava e morava com o filho. Sem rumo, os dois se viram obrigados a viver entre albergues e redes assistenciais para pessoas em situação de rua em São Paulo. O filho, com 30 anos, não suportou o tombo e passou por internações na psiquiatria do Hospital das Clínicas.

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Foi quando tudo parecia sem saída que a esperança renasceu de forma singela. Do lado do albergue onde vivia, no Largo de Pinheiros, o inglês Luke Jerram, criador do projeto Toque-me, Sou Teu, havia colocado um piano para o público. Maria Helena dedilhou algumas notas e voltou a cantar.

Nos últimos dois anos, Cydoka, como é conhecida na rua, aprendeu piano na Estação da Luz. Canções como Dio Come Ti Amo, Fascinação e Aquarela do Brasil fazem parte do repertório que deu origem a um CD de 12 músicas, gravado com a ajuda de admiradores que assistiram a seus concertos improvisados na estação.

A história de queda e ressurgimento de Maria Helena lembra a do ex-radialista dos Estados Unidos que na semana passada ganhou a imprensa internacional. Aos 53 anos, Ted Williams era até segunda-feira um sem-teto com passado de vício em drogas e problemas com a lei. Pedia esmolas com sua voz clássica de rádio, até que um motorista gravou sua "voz de ouro" e a colocou no YouTube. O vídeo foi visto por 5 milhões de pessoas. Dias depois, Ted foi contratado como locutor pelo time de basquete Cleveland Cavaliers e recebeu outras propostas de emprego.

Talentos quase desperdiçados também não são raros em São Paulo. Francisco Machado ou Chico Mafra, de 64 anos, gravou um disco de músicas em diferentes ritmos, boa parte de sua autoria. Está há três anos na rua. Depois de fazer duas peças sobre os moradores de rua, Sebastião Nicomedes prepara um romance. Em outubro, vendeu foto em um leilão especial de obras de sem-teto no Itaim-Bibi. Hoje, depois de muitas idas e vindas, mora em uma casa e convive com a família.

Oportunidades. "Podem parecer o fundo do poço, mas as ruas de São Paulo oferecem oportunidades para quem corre atrás", diz a poetisa Tula Pilar, que por seis anos vendeu a revista Ocas - comercializada por moradores de rua - para sustentar os três filhos e hoje organiza saraus da periferia.

Nelson Silva de Jesus, ou Bóbi Neto, de 41 anos, é outro dos que "correm atrás". Do interior da Bahia, ele se mudou para São Paulo há 22 anos, determinado a abrir uma discoteca. Mas as coisas não foram tão bem quanto ele imaginava. Trabalhou com construção e logo brigou com a mulher com quem morava. "Deixei ela e a mãe dela lá e fui para a rua." Nos anos 1990, já com outra mulher, uma casa e dois filhos, fez um curso de canto popular. Começou a tocar numa banda e a fazer cover de Raul Seixas. Depois de outros contratempos amorosos, voltou para as ruas em 2006. Começou a usar crack, maconha e cocaína e ficava o dia inteiro na cracolândia. Três anos mais tarde, conseguiu se recuperar, sozinho. Agora está gravando um CD de MPB.

Cantando, 32 anos depois. Já Maria Helena vive hoje em um albergue. Quando jovem, ela era contralto, dona de uma voz de timbre mais grave e vigoroso. Chegou a ganhar a vida como cantora em barzinhos no ABC paulista. Filha de pai sanfoneiro e mãe artista, ela acompanhava a família em excursões com o Circo Teatro Ayres e dava canjas desde os 5 anos. Cansada de viajar, a família se instalou na cidade de Ituverava, no interior do Estado, mas Maria Helena seguiu buscando seu sonho, cantando em matinês e peças de teatro.

Aos 26 anos, após um show em um restaurante de Santos, ela foi abordada por um marujo paquistanês, que a seduziu e a pediu em casamento. Tiveram dois filhos, mas não se entenderam. Para sustentar os filhos, virou diarista, cobradora de ônibus, entregou panfletos. E ficou 32 anos sem cantar. Até que encontrou o piano do Largo de Pinheiros e, já sexagenária, virou soprano (timbre mais agudo). Hoje não diz seu sobrenome para não envergonhar o filho mais velho, de 34 anos, e a mulher. Quando os visita, diz que tudo está bem. Afinal, está cantando.

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