''As pessoas vinham agradecer''

Foi pela Esquina do Pecado, um dos acessos à Vila Cruzeiro, que o sargento Ricardo Machado ingressou na mais longa operação policial em dez anos de Bope. Foram sete dias sem folga, com duas breves passagens em casa para trocar de roupa - de 168h, passou só 11 fora da favela. Nesse período, não viu os filhos - de 4 anos e 1 mês. Quando o garoto teve febre - "era só saudade" -, Machado ganhou autorização para passar 24h em casa. Aos 38 anos, é casado há 6 com uma professora.

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2010 | 00h00

Terça, 23. "Às 5 da manhã, os 400 homens do Bope estavam prontos para entrar na Vila Cruzeiro. Toda polícia estava de prontidão desde segunda, por causa dos ônibus incendiados. Somos quatro equipes - a minha é a Bravo -, divididas em patrulhas. Pegamos o blindado e, logo que entramos, a reação foi intensa. Foram 48h de muito tiro e granada. Um verdadeiro cenário de guerra. Quando você chega, é a hora mais crítica, porque não sabe onde bandidos estão. Moradores ficam em casa, acuados. Passamos a noite entrincheirados no alto do morro."

Quarta, 24. "As trocas de tiro continuaram na madrugada e ficaram mais intensas de dia. A locomoção era difícil, pelos trilhos e barricadas colocados pelo tráfico. A essa altura, estávamos havia mais de 24h sem alimento. Policial do Bope recebe treinamento para ficar até 48h. Pegamos água de bicas. Cada um leva barra de cereal ou biscoito. Em toda a operação, não houve baixa no Bope. Mas não sei dizer quantos bandidos ficaram feridos ou morreram. Minha mulher tentava falar comigo por telefone, mas não tinha como atender. Quando disse que teria de ficar, ela chorou. Nessas horas, a família toda liga. Mas a gente não pode atender."

Quinta, 25. "Blindados da Marinha entraram na Vila Cruzeiro. A população não acreditava. Pessoas saíam de casa espantadas. Começaram a tirar fotos, vinham agradecer, como se tivessem sido libertadas. E aí houve o que todo mundo viu na TV - a correria desesperada de criminosos. A gente sabia que eram mais de 100. Mas ver 200 correndo desesperados, jamais tinha visto. Não ficou um vagabundo. Foi uma sensação muito boa."

Sexta, 26, e sábado, 27. "Ficamos na parte alta da Vila Cruzeiro. E havia um trabalho psicológico para enfraquecer traficantes. O Alemão foi cercado. Ficamos dois dias de prontidão. Criminosos receberam prazo para se entregar. Os confrontos foram esparsos."

Domingo, 28. "Às 5h, tomamos posições estratégicas para tomar o Alemão. Não houve reação, tiro, nem granada."

Segunda, 29. "Fizemos patrulhas em busca de armas, drogas, dinheiro do tráfico. Fui em casa à noite trocar de roupa. Meu filho estava dormindo."

Terça, 30. "Continuamos no morro. Foi a mais longa operação de que já participei. O pior de tudo não é enfrentar criminoso. É deixar a família."

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