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As origens da monogamia

Dois estudos divulgados na semana passada lançam novos olhares sobre a monogamia, um tema sempre controverso. Para muitos casais, ela é a única maneira de um relacionamento se perpetuar. Para outros, nos dias de hoje, ela estaria fadada ao fracasso, já que, com a maior liberdade e autonomia dos indivíduos, o desejo sexual não se encerraria, no longo prazo, em uma única relação afetiva. Para alguns especialistas, ela não seria um comportamento natural, mas uma construção histórica e social, um pacto para garantir que laços e bens familiares fossem preservados para os descendentes.

JAIRO BOUER,

04 de agosto de 2013 | 02h03

Curioso olhar em volta do ser humano para pensar em qual foi o papel da monogamia na evolução das diversas espécies. Durante muito tempo se imaginou que grande parte das aves, por exemplo, seria monogâmica, que essa parceria seria mantida e preservada porque garantiria um melhor cuidado parental e, portanto, uma chance maior de sobrevivência para a prole, já que pai e mãe estariam próximos dos filhotes. Isso poderia ter acontecido também com nossos antepassados.

Mas já há alguns anos, uma série de trabalhos mostrou que a história não era bem assim. Ao pesquisar a genética dos filhotes em ninhos de aves supostamente monogâmicas, se percebeu que, em boa parte deles, o parceiro não era necessariamente o pai. Nas suas voltas para buscar recursos (comida), machos e fêmeas se envolviam em acasalamentos eventuais.

Dois novos estudos põem mais lenha na fogueira dessa interminável discussão. O primeiro deles, realizado por antropólogos da UCL (University College of London) e publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, avaliou 230 diferentes tipos de primatas, e mostrou que nas espécies monogâmicas, a taxa de infanticídio (morte dos filhotes pelo pai ou pela mãe) era menor do que nas espécies não monogâmicas. Para os cientistas, evitar o infanticídio (e não ter um melhor cuidado parental) foi a razão primária da monogamia ter se perpetuado como comportamento. Ao ficar ao lado da fêmea, os machos garantiam uma maior chance de que seus filhotes não fossem mortos por concorrentes. Bom lembrar que em mamíferos, em geral, a monogamia é comportamento raro, mas está presente em cerca de um quarto dos primatas.

Se formos pensar no ser humano contemporâneo, nas famílias em que o pai está ausente, os jovens parecem estar mais expostos a uma série de comportamentos de risco, que poderiam aumentar o número de mortes precoces e violentas (algo que poderia ter algum paralelo com o infanticídio). É lógico que a questão da exclusão social potencializa esse fenômeno.

O segundo estudo, realizado por zoólogos da Universidade de Cambridge e publicado na revista Science, localiza outra causa que teria perpetuado a monogamia, que também não teria o maior cuidado parental. Os pesquisadores trabalharam com 2.500 espécies de mamíferos (onde apenas 10% eram monogâmicos). Para eles, nas espécies em que as fêmeas ocupam um grande espaço territorial e não permitem a presença de outras rivais, a chance de monogamia aumenta, como tentativa dos machos de garantir que ela não seja "dividida" com outros indivíduos. Assim, a baixa densidade espacial das fêmeas e a necessidade do macho de garantir sua parceira reprodutiva seriam as causas da monogamia.

Moral da história: do ponto de vista da evolução das espécies, evitar a morte prematura dos filhotes ou garantir uma parceira reprodutiva parecem ser os fenômenos geradores da monogamia. O melhor cuidado da prole parece ser uma consequência, já que o macho que está por perto pode dividir responsabilidades com a fêmea.

Se essas estratégias foram a origem da monogamia entre nossos antepassados, só mais estudos podem apontar. E qual o papel da monogamia nos dias de hoje é uma questão também em aberto.

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