As marquises da Paulista

METAMORFOSE

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2010 | 00h00

Local de eventos alegres da cidade, como festejos de fim de ano, corrida de São Silvestre, comemorações de torcidas de clubes de futebol, paradas religiosas e gay, a Avenida Paulista tem atraído a atenção pela tristeza. Temendo os abandonados que dormem pelas calçadas, lojistas da região fecharam espaços sob marquises para impedir a indesejada presença.

É curiosa a situação da Paulista. Aberta em 1891 para ser aprazível morada de famílias abastadas, no alto do Morro do Caaguassu, foi por mais de século objeto de desejo. Nos últimos anos, com a chegada do metrô e a reforma de prédios residenciais, a região vive uma nova mudança de perfil - a via, que durante tempos foi reduto de negócios, hoje atrai moradores em busca do conforto dos bons serviços que por ali se desenvolveram. Outro dia, lendo sobre Lina Bo Bardi, uma das principais personagens da arquitetura paulistana, relembrei o que a criadora do Masp queria para aquela área da Paulista: mais gente.

Na incontrolável balada da reconstrução da paisagem paulistana, que ergue e destrói coisas belas, como disse o poeta, o próprio museu-cartão-postal de Achillina Bo - nascida na Itália em 1914 e naturalizada brasileira em 1951 - é marca da devassa centenária.

O Masp foi construído no local em que a cidade viu, até os anos 50, um clube conhecido como Trianon - referência a uma construção que lembrava os jardins de Versalhes. Os pavilhões do Trianon da Paulista, das festas dos anos 20 e 30, abrigaram também a bienal de artes da cidade. Mas foram demolidos no fim dos anos 50. Sobre o terreno foi erguido o Masp, como lembrou o historiador Nestor Goulart Reis Filho no Jornal da Tarde, em 1990.

Lina, que morreu em 1992, queria o museu em conjunto com o Parque Trianon - que chamou de "Central Park dos Pobres" no livro Lina Bo Bardi (Imprensa Oficial). Ela não conseguiu a integração do seu Masp com a área de mata do outro lado da avenida. Mas o vão livre, no antigo belvedere, permanece aberto. Pelo menos durante o dia.

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