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Fernando Reinach
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As ânforas de Favignana

Em setembro de 2000, perto do lindo vilarejo de Favignana, na Sicília, foram descobertos os destroços de um navio naufragado 600 anos antes. Ele carregava pequenas ânforas de estanho ricamente decoradas. As ânforas, cada uma de 27 centímetros, estavam perfeitamente lacradas e havia líquido no seu interior. O que seria tão precioso para ser transportado de maneira tão cuidadosa em frascos pequenos e luxuosos?

Fernando Reinach, É biólogo

16 de maio de 2015 | 03h00

A química analítica tem ajudado os arqueólogos. Em 1996, analisando restos secos no interior de potes da época neolítica, foi possível identificar uma série de moléculas produzidas durante a fermentação de uvas. Isso permitiu aos cientistas concluir que 7 mil anos atrás nossos ancestrais já produziam e apreciavam algo semelhante a um bom Bordeaux. Em 1815, um lote de garrafas que viajava da França para a Rússia acabou no fundo do mar da Finlândia. Mergulhadores descobriram as garrafas em 2010. Beberam uma delas, bem preservada pelas baixas temperaturas e pela escuridão do Mar Báltico. Era champanhe. E assim, combinando as cartas de Madame Clicquot com modernos métodos da química analítica, foi possível determinar como era a produção de champanhe Veuve Clicquot por volta de 1811. Mas essas são outras histórias.

Esses mesmos métodos foram usados para analisar o conteúdo das ânforas de Favignana. A primeira descoberta foi que o líquido continha ácido tartárico, o que sugeria a presença do suco de alguma fruta, provavelmente uva. Mas a alta concentração de ácido ascórbico, muito maior do que a existente nas uvas, sugeria que o líquido também continha uma fruta cítrica rica em vitamina C, talvez suco de laranja. Usando outro equipamento foi possível detectar etanol em concentrações próximas a 3%, um terço do encontrado nos vinhos modernos. Isso indicava que a fruta havia sido fermentada. Além do etanol, foram encontrados outros compostos típicos da fermentação de uvas, como o metanol e o aceto-aldeído. 

Até aqui, tudo bem, o líquido parecia ser uma mistura de vinho diluído com suco de laranja. Mas por que uma mistura tão simples seria guardada em ânforas tão preciosas? A resposta veio da análise dos íons presentes no líquido. A concentração de chumbo era alta, 20 vezes o limite permitido atualmente. Nessas concentrações o chumbo é suficientemente tóxico para evitar o crescimento de bactérias e serve como preservativo. Aí os historiadores entraram em campo.

Era costume entre os romanos macerar um pouco de vinho em potes de chumbo, de modo a produzir sais de chumbo. Esses sais, além de preservar a poção, seriam benéficos à saúde. Assim pensavam os romanos. Foi só muito mais tarde que se descobriu que o chumbo é extremamente tóxico. 

Animados, os cientistas foram investigar se os antioxidantes presentes no vinho, como os polifenóis, estavam presentes na bebida. Tiro e queda, lá estavam eles, em quantidades menores que as presentes nos vinhos modernos. E mais que isso, os cientistas foram capazes de demonstrar que o líquido, quando testado em células humanas, ainda preservava suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

A conclusão é inescapável. As ânforas encontradas em Favignana faziam parte de um lote de medicamentos produzidos entre 1300 e 1400, em plena Idade Média. Produzidos não sabemos onde, estavam sendo transportados para não sabemos onde. Sem dúvida uma mercadoria valiosa. O interessante é que, excluindo o chumbo, essa poção curativa era rica em vitamina C, antioxidantes, e outros compostos que até hoje se acredita serem benéficos para a saúde humana.

Os cientistas não resistiram à tentação de beber um pouco do medicamento: “A cor é branca com tons de dourado, aroma de uvas secas e couro, vinho aromático, ácido, adstringente, um pouco salgado. O gosto é forte e persistente...”. Foi nesse ponto da degustação que tiveram de parar. Já haviam bebido o máximo de chumbo permitido pela legislação italiana.

MAIS INFORMAÇÕES:

LONG-LASTING ANTIOXIDANT ACTIVITY IN A 600-YEAR-OLD FERMENTED FRUIT JUICE. ANTIOXIDANT & REDOX SIGNALING VOL. 6 PAG. 934

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