As 224 ruas que nem o GPS encontra

Moradores de vias que ainda não ganharam um nome enfrentam transtornos diários para receber entregas e acionar serviços de emergência

Diego Zanchetta e Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Como encontrar um endereço sem nome entre as 91.232 ruas, avenidas e praças de São Paulo? Nenhum GPS consegue indicar hoje o caminho para se chegar à "Praça dos Fretados", em Pinheiros, na zona oeste, ou à "Rua 3", no extremo da zona sul. O transtorno de quem procura se torna ainda maior para as famílias que vivem nas 224 vias da cidade que aguardam denominação da Câmara Municipal.

Das entregas e cartas que nunca chegam à impossibilidade de inscrição em programas de assistência social, são inúmeros os problemas enfrentados pela dona de casa Elaine Cristina de Souza, de 29 anos. Ela mora numa rua de terra "inominada" em Marsilac, maior e menos povoado distrito da cidade, a 40 quilômetros ao sul do centro. Em junho, Elaine não conseguiu acionar o Corpo de Bombeiros para apagar um incêndio no terreno vizinho. "Desisti depois de explicar três vezes onde era o fogo."

Os serviços de urgência - médicos ou policiais - também raramente conseguem chegar a alguma das 44 ruas sem nome do distrito. "Falamos sempre por pontos de referência: perto do posto de saúde, da escola, do campo de futebol. Mas a confusão é enorme", reclama a presidente da Associação Comunitária de Engenheiro Marsilac, Maria Lúcia Cirillo. A associação faz certificados de residência e recebe cartas de quem vive nas ruas não oficializadas.

Mesmo em áreas centrais há logradouros anônimos. Fábio Guedini, de 39 anos, analista financeiro, conta aos risos que perdeu o ônibus de volta para Santos no primeiro dia de trabalho. Funcionário de um banco na Avenida Paulista, ele ficou duas horas tentando encontrar a praça sem nome na esquina da Avenida Dr. Arnaldo com a Rua Oscar Freire, em janeiro. "Falaram que era na "Praça dos Fretados". Perguntei na Paulista e ninguém conhecia. Voltei de ônibus normal mesmo."

Na zona leste, 32 ruas sem nome aguardam "batismo" do Legislativo. "Nunca recebi um botijão de gás em casa", afirma Adalton Guerra, de 46 anos, que mora numa rua sem nome na altura do número 3 da Avenida Inajá-Guaçu, em São Miguel Paulista.

Mudança. Além dos 224 projetos para ruas sem nome que aguardam votação na Câmara, há 71 propostas para alterar denominações. Recentemente, um projeto do vereador Antonio Goulart (PMDB) mudou, depois de 30 anos, o nome da Avenida Robert Kennedy para Atlântica, na zona sul. Cada morador da via terá gastos de R$ 16,24 de cartório para alterar o endereço.

"A prioridade dos vereadores deveria ser votar projetos para ruas sem nomes. Morar numa via dessas já é transtorno no interior, imagine na capital, onde as ruas somam 17 mil quilômetros de extensão?", questiona Gean Luiz Pieroni, advogado especialista em Direito Administrativo.

A Prefeitura também nomeia vias a pedido da população - foram 164 entre janeiro de 2009 e agosto deste ano. Neste período, a Câmara nomeou 119 ruas.

E trabalho de nomeação não deve faltar: até dezembro, 120 ruas devem ser abertas na cidade, em loteamentos já autorizados pelo governo.

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