Artistas se unem e 'salvam' antiga fábrica de doces no Rio

Prédio, na zona portuária, foi leiloado por R$ 3,2 mi, mas acabou declarado de utilidade pública pela prefeitura

Heloisa Aruth Sturm, Rio, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2012 | 03h05

As obras de revitalização da zona portuária do Rio já despertam o interesse das incorporadoras, que agora observam com um novo olhar essa área degradada da cidade. Recentemente, uma antiga fábrica de doces desativada virou ponto de disputa entre artistas que mantêm ateliês no local e empresários que pretendiam usar o terreno para construção. Uma série de embates jurídicos e ameaças de despejo pareciam dar um destino incerto para o local. Ontem, dois decretos municipais, que tombam e tornam de utilidade pública o imóvel, foram publicados para garantir a permanência dos artistas.

No prédio de quase 20 mil m² funcionou durante décadas a Fábrica de Chocolates Bhering, inaugurada em 1934 para produzir balas e chocolates finos. Desativada no início da década de 1990, a fábrica ganhou vida com a presença de jovens artistas, que passaram a ocupá-la no início de 2010.

"A tendência natural do artista é ser um desbravador dos espaços não convencionais", define a artista plástica Beatriz Carneiro, inquilina de um dos 20 ateliês ali instalados.

Engana-se quem pensa que uma fábrica abandonada, de aparência decadente, não pode servir de inspiração para as experimentações das mais criativas. "Há dois anos, senti a necessidade de ter um espaço de criação para desenvolver a produção artística, e como a minha pesquisa tem muito a ver com arquitetura, de certa forma a estrutura da Bhering contribui muito em várias das minhas produções", afirma Carolina Martinez, uma das mais antigas locatárias.

"Nada disso foi planejado. Os artistas foram se encaixando na fábrica e os donos foram absorvendo bem essa nova vocação que o prédio foi tomando", disse Luiz Felipe Lins, que administra o imóvel. Ele não quis comentar o preço do aluguel pago pelos locatários, mas afirmou que são valores bastante atrativos (continua).

Leilão. Foi o potencial da área que levou o empresário Marcelo Rodrigues, da Syn-Brasil Empreendimentos Imobiliários, a arrematar o espaço em um leilão no ano passado para quitar uma dívida de R$ 150 mil da Bhering.

O caso somente veio à tona na última semana, quando os artistas receberam uma ordem de despejo para desocupar o local em 30 dias. A Bhering tentava anular o leilão, alegando que vinha efetuando o pagamento parcelado da dívida desde 2009. Os artistas se disseram surpresos com o valor pago pela Syn-Brasil: R$ 3,2 milhões. Os antigos donos da fábrica afirmam que o prédio vale dez vezes mais. "Por esse valor, poderíamos ter comprado coletivamente", disse a artista Beatriz.

A iminência do despejo virou uma comoção nas redes sociais, e levou o prefeito do Rio, Eduardo Paes, a declarar o tombamento do local e transformá-lo em local de utilidade pública. "Estamos trabalhando para que esse processo seja inclusivo e contemple o uso e as atividades características da vida contemporânea, tais como a economia criativa e as manifestações culturais", disse Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, vinculado à Prefeitura.

Residência. Amanhã, será feita a primeira reunião com os artistas depois da mais recente vitória pela manutenção do espaço. Em discussão, estarão planos de criar uma espécie de residência de artistas, construir espaços comuns de exposições e desenvolver projetos educativos com as comunidades do entorno.

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