Artistas ganham mais espaço nas ruas de São Paulo

Prefeitura agora promete incentivar trabalho de mímicos, estátuas vivas e músicos nas vias

Artur Rodrigues, de O Estado de S. Paulo,

31 Março 2013 | 02h01

O Michael Jackson faz o passo 'moowalk' na Paulista e em ruas do centro, o instrumentista toca música experimental no metrô, o malabarista faz embaixadinhas com ovos na 25 de Março e a estátua desperta sorrisos na Ladeira Porto Geral. Numa cidade onde não falta plateia, as ruas de São Paulo nunca foram palco para tanta gente.

Após enfrentarem perseguição e serem enxotados das calçadas nos últimos anos, eles ganharam apoio do poder público e têm hoje como maior inimigo o tempo chuvoso de São Paulo. Uma garoa e o pirata Jack Sparrow feito pelo peruano Rodolfo Valentino, de 37 anos, desmancharia. "Dependemos do tempo. Nesta semana não estou nem indo trabalhar", diz o peruano Rodolfo Valentino, de 37 anos.

Estatua viva desde 2005 e formado em artes cênicas, ele se define como um artista na rua, não um artista de rua. "Não existe cidade tão complexa e faminta por arte como São Paulo. A rua sempre tem público e é um espaço que o artista pode utilizar como laboratório e oficina."

Celso Reeks, da Associação dos Artistas de Rua, afirma que só o catálogo da entidade na internet já conta com 250 artistas. "Isso deve ser a metade do total", diz ele. "Com o maior interesse, a gente tem visto apresentações de ainda mais qualidade chegando", afirma.

Depois de embates com artistas rua, chegando até a proibir que eles recebessem doações, o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) abriu caminho para o crescimento da categoria nas ruas ao regulamentar o trabalho em 2011. A sintonia com o poder público aumentou na gestão de Fernando Haddad (PT), que promete incentivar esse tipo de arte.

"Nos últimos anos, houve um processo de cerceamento. Houve até momentos em que trabalhar na rua foi proibido e a gente entende que a arte de rua se trata de uma das características mais vivas, mais potentes da cidade", afirma o chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Cultura, Rodrigo Savazoni.

Uma das principais reivindicações dos artistas de rua da capital é a aprovação de um projeto de lei, que já passou em primeira votação na Câmara Municipal, que estabelece direitos e deveres a quem quiser passar o chapéu nas ruas da cidade.

Mesmo sem a lei, a cidade já é vista em outros Estados como a capital da arte de rua. Pesquisa da SPTuris revela que 35% dos que fazem as performances ao ar livre são nordestinos. O paraibano Christian Joseph, de 26 anos, não conseguia sobreviver como sósia do ídolo Michael Jackson na terra natal. "Aqui, percebi que dava para viver só disso", diz. O expediente dele começa às 17h, quando os demais estão voltando para casa. Muitos não resistem e param no meio da Rua Barão de Itapetininga, por exemplo, para dançar com o sósia do rei do pop.  

Musical. A grande maioria das performances (61%) nas ruas é musical. O violinista André Martins, Andryêshua, de 27 anos, porém, prefere as estações do Metrô - que, diferente de muitos outros no mundo, proíbe artistas de fazerem apresentações. O motivo é a acústica, o que reflete até mesmo nas gorjetas. "Se eu fico tocando três horas no Parque Trianon, ganho o mesmo que em meia hora no metrô", diz. "O som se propaga, não estou competindo com barulho de helicóptero, buzina, ambulância", completa.

O Metrô afirma que mantém o projeto Encontros, um espaço permanente com atrações gratuitas de várias modalidades artísticas. O formato, porém, nada lembra o estilo encontrado nas apresentações em que os artistas colocam o chapéu no chão das plataformas e corredores e esperam pelas moedas.

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