Artigo: 1932 - Um pouco sobre a guerra

A única forma de se entender o movimento de 1932, que culminou na maior campanha militar em território brasileiro no século 20, é inserir os fatos dentro de uma visão global, comparando o que aconteceu em solo brasileiro com algumas das grandes ações militares dos séculos 19 e 20.

Antonio Penteado Mendonça, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 01h30

Ao contrário delas, a guerra civil paulista não teve nenhuma grande ação decisiva para o resultado final. 32 não tem nenhuma batalha comparável a Gettysburg, na Guerra Civil Norte-Americana, ou às batalhas do Somme e Verdun, na Primeira Guerra Mundial. Nem com a luta sem quartel na frente russa, na Segunda Guerra Mundial. 

A luta, em três frentes, durou 3 meses, ao longo dos quais os paulistas foram paulatinamente esmagados pelas tropas federais e deixou um saldo oficial de aproximadamente mil mortos (2.500, levando em conta mortes não diretamente ligadas aos combates), número insignificante, se comparado às 60 mil baixas britânicas no primeiro dia da Batalha do Somme, aos mortos em Gettysburg ou aos vinte milhões de russos mortos na Segunda Guerra Mundial.

Mas a comparação precisa levar em conta outros fatores. Enquanto, desde o século 19, a Revolução Industrial mudava a cara da Europa e dos Estados Unidos, em 1932, o Brasil mal e mal conhecia seu interior. Não havia estradas de rodagem ligando São Paulo a Campo Grande, Londrina, Uberaba, ou mesmo a cidades dentro do próprio Estado, como Araçatuba e Presidente Prudente. 

As ligações rodoviárias eram feitas por meio de estradas de terra, aliás, como era a estrada velha de São Paulo a Campinas, no trecho entre Jundiaí e Vinhedo, até a década de 1960. Foi também apenas na década de 1960 que teve início a ligação rodoviária entre o sul e o norte do país, com a construção da Belém-Brasília.

São Paulo era cortado por uma importante malha ferroviária, construída para escoar o café do interior para o porto de Santos. Os demais estados brasileiros não tinham nada comparável, o que fazia as ligações entre as diferentes regiões serem difíceis e demoradas.

A energia elétrica era escassa na zona rural. Telefone era artigo de luxo que, quando funcionava, com o auxílio de telefonistas, demorava horas para completar uma ligação interurbana.

A industrialização dava seus primeiros passos, em um país que só veio a ter sua primeira siderúrgica dez anos depois. Os níveis de analfabetismo se aproximavam de 70%. A participação do povo na vida política era pequena, por conta do analfabetismo e pelo desenho dado pela Constituição para o funcionamento da máquina político-administrativa da nação.

É neste cenário, agravado pela crise mundial de 1929, que acontece a Revolução de 1930, que viria a quebrar a sequência política instalada no Brasil desde a Proclamação da República. Getúlio Vargas altera a ordem vigente, introduzindo a centralização absoluta do poder em suas mãos.

São Paulo foi o Estado mais afetado pelas mudanças. Unidade mais rica e desenvolvida da Federação, São Paulo estava habituado a comandar a política nacional, eleger regularmente o Presidente da República e gozar de grande autonomia na administração do seu território. A centralização imposta pela nova ordem, e a leitura equivocada da realidade do Estado pelo novo Governo Federal, feriu o orgulho e atingiu diretamente a vida dos paulistas.

Logo após a vitória de 1930, os paulistas sentem a mudança dos ventos, com o Governo do Estado entregue a um grupo de "tenentes" ligados a Getúlio Vargas, dispostos a mudar o ritmo do desenvolvimento acelerado de São Paulo.

A reação é imediata. Mas, ao contrário da regra nacional, de passividade da população, desta vez o povo se rebela e demonstra nas ruas a insatisfação com o que acontecia. A educação e a saúde de melhor qualidade, a introdução de novas tecnologias de produção, a consolidação de uma sociedade moderna e a possibilidade de garantir um futuro melhor para sua família haviam gerado um novo cidadão, ciente de suas possibilidades, de seu direito a uma vida digna e disposto a pagar o preço para mantê-la.

A espinha dorsal da Revolução de 1932 foi a população, que pegou em armas para manter as conquistas sociais e seu modo de vida. Muito mais do que os políticos, os verdadeiros responsáveis pelo movimento e pela eclosão da guerra foram as pessoas comuns, que não hesitaram em sair às ruas, protestar e, depois de 9 de julho de 1932, tomar em armas e marchar para as frentes de combate ou trabalhar em atividades de apoio ao esforço de guerra.

9 de julho de 1932 foi a data em que os protestos evoluíram para a guerra. Se, de um lado, uma série de fatores políticos teve seu peso, foi a população do Estado, que aderiu imediata e incondicionalmente, quem possibilitou a organização dos batalhões de voluntários, base das tropas que, durante os três meses seguintes, lutaram nas fronteiras de São Paulo contra forças numericamente superiores, mais bem equipadas e treinadas.

A única chance de vitória dos paulistas era, logo depois da eclosão do movimento, marchar rapidamente para o Rio de Janeiro. Não foi o que aconteceu. Em vez de seguir célere, pelo menos até Barra do Piraí, onde cortaria as principais ligações do Rio de Janeiro e Minas Gerais, se posicionando apenas a duas horas da Capital Federal, a tropa paulista recebeu ordem de parar em Queluz e aguardar a chegada dos comandantes em chefe da Revolução, os generais Isidoro Dias Lopes e Bertoldo Klinger. A partir desse momento, o movimento estava condenado. A guerra de trincheiras era francamente favorável às tropas federais, que começaram a pressionar os paulistas, até a rendição, três meses depois.

A falta de ousadia do Coronel Euclides Figueiredo foi fatal para os revolucionários. Ao ordenar que suspendessem a marcha, ele sacrificou a única vantagem de suas tropas. Se se mantivesse o avanço em direção à Capital, o Primeiro Exército deveria aderir ao movimento e depor Getúlio Vargas. A interrupção foi lida como fraqueza dos revolucionários e as forças federais ficaram leais ao ditador. Em poucos dias, São Paulo estava cercado pelas tropas do exército e das polícias de Minas Gerias e do Rio Grande do Sul.         

Enquanto a ditadura enviava para as frentes de combate soldados profissionais, das Polícias Estaduais, do Exército e da Marinha, mais bem armados e equipados, as tropas paulistas eram formadas por unidades do exército aquarteladas no Estado, sem treinamento e de discutível lealdade, soldados da Força Pública, bem treinados e equipados, mas em parte pouco confiáveis, e, principalmente, voluntários civis, sem qualquer familiaridade com assuntos militares, comandados por homens do Exército ou da Polícia, nem todos à altura dos cargos.

Em função da posição geográfica de São Paulo e das malhas ferroviária e rodoviária, a guerra se estendeu em três frentes: Vale do Paraíba, Frente Norte, na fronteira com Minas Gerais, e Frente Sul, na fronteira com o Paraná.

Um dos erros dos líderes paulistas foi conspirar contra a ditadura quase que às claras, permitindo que Getúlio Vargas acompanhasse de perto o que acontecia e ordenasse a retirada do armamento moderno dos quartéis do Estado.

Em 9 de julho, os paulistas foram à luta, armados com fuzis velhos, poucos canhões e algumas metralhadoras e fuzis-metralhadoras. Do outro lado, as tropas federais contavam com armas mais modernas, em muito maior quantidade, inclusive artilharia de campanha, força aérea e marinha, que rapidamente bloquearam o Porto de Santos, impedindo a entrada de eventual auxílio.

Os relatos a respeito da guerra, feitos em dezenas de livros escritos por combatentes e revolucionários de todas as patentes, mostram os paulistas bastante desorganizados e com uma tênue e despreparada cadeia de comando. Mas, tão grave quanto a falta de comando eficiente e coordenado, foi a incompetência, a traição e a covardia de dezenas de comandantes das tropas revolucionárias, tanto do Exército como da Polícia, que deixaram vários batalhões de voluntários mal treinados e mal equipados, apesar de sua coragem, serem cercados, bombardeados ou atacados pelas tropas federais.

Se, no Vale do Paraíba, soldados de alguns batalhões de voluntários, às sextas-feiras, deixavam a linha de frente para passar o fim de semana em São Paulo, como narra Paulo Duarte em "Palmares Pelo Avesso", o trem blindado deu provas de bravura. Se, na Frente Sul, a covardia de alguns sargentos e tenentes era desmoralizante, a coragem dos voluntários retardou o avanço do inimigo. E se, na Frente Mineira, havia traidores, a Coluna de Cavalaria do Coronel Romão Gomes deu provas de bravura e competência militar.

Vale transcrever parcialmente passagens de alguns livros sobre a Revolução:

"Em Buri se combate e há defecções. O Coronel Klingelhoefer percorre as trincheiras a pé...A retirada se faz, mantendo a artilharia o inimigo à distância...Fala o Coronel Taborda (comandante paulista em Buri): acabo de chegar de Buri, onde assisti ao espetáculo horrível da derrota pela traição de uns e a covardia de outros." (A Epopeia - Aureo de Almeida Camargo).

"Mário sempre foi alegre e animado. Na hora de maior aperto para nós ele encontrava qualquer coisa para contar que fizesse rir os companheiros...Acredito que em dados momentos vozes estranhas e misteriosas advertem o homem de fatos futuros. Mario naquela noite teve um pressentimento que se tornou realidade. Cavou com as suas mãos o próprio túmulo." (Nove de Julho - Valentim Alves da Silva).

"Pinhal caiu, segundo comunicação que acabei de receber...temos ordem de retirada imediata. Nem em São João podemos nos deter. Vamos diretamente para Cascavel." (A Coluna Invicta - Herbet Levy).

"Em Casa Branca há um grande acúmulo de caminhões procedentes de todas as cidades abandonadas. Lentamente, vai sendo organizada a caravana da retirada." (Idem).

"Por volta do meio dia, porém, uma de nossas trincheiras não consegue conter a tropa atacante, quando, com os 18 homens de que dispunha chegou a ter apenas 4 de seus fuzis funcionando! E sem outra alternativa, vê-se obrigada a abandonar sua posição para não cair prisioneira." (Batalhão 14 de Julho - Augusto de Souza Queiroz).     

"Depois do movimento de julho, nada mais restava a São Paulo senão calar-se, como se calou, com a dignidade conquistada pelos que morreram." (A Epopeia).   

"Ninguém foi para a guerra pela constituição, pensando em separatismo,.. Ninguém marchou por causa de Klinger ou de Isidoro. ..Fomos todos pensando em defender São Paulo. E foi esse idealismo  que criou...o heroísmo da mocidade paulista." (Itararé, Itararé - Honório de Sylos). 

Esmagado pelo número, pelo armamento superior das tropas federais e pelo desabastecimento de seus exércitos, São Paulo lutou durante três meses. Vendo o fim da resistência organizada e avaliando os riscos para a população no caso de uma invasão do Estado por soldados querendo vingança e saquear o inimigo vencido, o Comando da Força Pública (atual Polícia Militar), para evitar cenas de terror envolvendo a população civil, ordenou o cessar fogo. Em 2 de outubro de 1932, São Paulo se rendeu, pondo fim à luta armada contra Getúlio Vargas.

 

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