Arte transforma casinhas em ecopontos

Parques e praças ganham 50 pontos de coleta de lixo personalizados por artistas

VALÉRIA FRANÇA, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2012 | 03h09

O paulistano André Crespo, de 34 anos, é conhecido por pintar situações de caos em grandes metrópoles. Rodrigo de Castro, de 55, filho do escultor concretista Amílcar de Castro, tem como marca registrada telas com formas geométricas exatas, preenchidas com cores fortes. Eles são dois dos 51 artistas que, a partir de hoje, terão obras espalhadas por 50 novos pontos de coleta de lixo reciclável na cidade.

Batizados de ecopontos, eles têm a forma de uma casa de brinquedo de 2 metros de altura e são feitos de PVC. Com ajuda dos artistas, cada um deles ganhou uma cara. A ação faz parte do projeto Gira Brasil, de uma empresa criada pelos amigos Ricardo Sampaio, Marina Renault e Renato Becker para colocar em prática a ideia. "Não dá mais para ver a cidade suja. Há questões que nunca se resolvem, como a despoluição das águas do Rio Tietê. Temos de fazer algo", explica Sampaio. "Os ecopontos ficam nas ruas por 90 dias, mas se a Prefeitura quiser poderão ficar de presente para a cidade."

Os ecopontos serão distribuídos pelos Parques da Aclimação, do Ibirapuera e Villa-Lobos, entre outros. Também estarão em grandes praças, como a da República, Charles Miller e Pan-americana. Os outros endereços podem ser conferidos no site www.girabrasil.com.

A Cooperativa Viva Bem - que hoje recolhe mensalmente 270 toneladas de lixo em locais determinados pela Subprefeitura de Pinheiros - fará a coleta dos novos ecopontos. "Esses espaços devem representar a reciclagem de mais 50 toneladas por mês", diz Elma Oliveira Miranda, de 44 anos, presidente da cooperativa, que está ampliando sua capacidade com assessoria da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Fundação Getúlio Vargas.

Não há tema definido para a intervenção artística nos ecopontos - a personalização depende da inspiração de cada convidado. André Crespo, por exemplo, pintou imagens de pessoas andando nas ruas. "Adorei a ideia de ajudar a limpar a cidade e ao mesmo tempo deixá-la mais bela. Nem todo paulistano tem a sorte que eu tenho de ter um ponto de coleta de lixo na esquina de casa. Tenho amigos que precisam levar o lixo no carro."

Outro olhar. Já Rodrigo de Castro forrou as paredes da casinha com listras cinzas e vermelhas de tamanhos diferentes. "Reproduzi o mesmo trabalho de uma das minhas telas. Foi a forma que encontrei de embrulhar o lixo e mostrar que é preciso ter outro olhar para essa questão."

Outras duas participantes costumam recolher material descartado nas ruas para aproveitar nos trabalhos que desenvolvem na Charlotterie, estúdio de criação artesanal. Patrícia Sper, de 42 anos, e Flávia Renault, de 40, pesquisam soluções cenográficas para quartos, festas e peças de teatro, entre outros ambientes. "Não jogo nada fora. Arquivo de ingressos de teatro a documentos velhos. Tudo pode transformar-se em matéria-prima", diz Flávia. O ecoponto da dupla parece um diário de adolescente. Jornal velho, um documento da Secretaria da Fazenda de 1947, partituras de música e até galhos de árvore cobrem as paredes da casa.

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