Arroz de féretro

Se você me lê, talvez se lembre daquele camarada que ao volante de seu fusca, em Belo Horizonte, precisava dar a volta à cidade para chegar a qualquer ponto, pois o volante só girava para um dos lados. Acha que eu estou de gozação? Então saiba que essa não era a sua única bizarria. Tinha, o fulano, toda uma coleção de esquisitices - e uma delas, capaz de lhe conferir duradoura reputação municipal, era a mania de comparecer a velórios. Não perdia um. Hoje, seria chamado de arroz de festa - ou de féretro?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

Não, não estou fazendo caricatura. Quando me lembro dele, está sempre metido num terno (chego a me perguntar se a mãe, no aguardo do bebê, não terá tricotado uns jaquetõezinhos de lã) - e tem, ao fundo, encostada à parede, uma tampa de caixão. Fecho os olhos e vejo aquele mar de cabeças, entre as quais a dele, em segundo plano os ramos mais altos de uma coroa de flores e, atrás, a tampa do caixão.

Você pode argumentar que na Belo Horizonte daquele tempo, não havendo muito que fazer, velar defunto não chegava a ser um mau programa. O escritor Cyro dos Anjos, que teve lá uma fase de estudante pobre, conta em suas memórias que para comer volta e meia lançava mão do recurso extremo de frequentar velórios - "os abastados, onde a empadinha e o pastel eram certos", ou "os modestos, assistidos apenas a biscoito Maria e café". Mesmo gente de estômago saciado tinha esse hábito.

Mas nosso camarada exagerava. Consta que assinava mais de um jornal, para ter à disposição maior número de anúncios fúnebres - leitura tão indispensável quanto o pãozinho fresco em seu café da manhã. "Vamos ver o que dizem os jornais", recitava ele à mulher, com uma ponta de necrofílica excitação. Em sua boca, a frase queria dizer: vamos ver quem morreu. Embora se tratasse de uma boa alma, não lhe faltava um tiquinho de malignidade, pois acreditava, como Millôr Fernandes, que a leitura dos obituários às vezes nos reserva ótimas notícias.

Começava pelo Estado de Minas, lido entre goles de suco de laranja, traçava O Diário enquanto dava cabo do mingau de maisena e arrematava o desjejum, entre goles de café, com os defuntos socialmente menos relevantes da Folha de Minas. Ao remover com o guardanapo os últimos farelos no canto da boca, tinha já esquematizada a ronda funérea, que consumia boa parte de seus vagares de aposentado. Era tempo, ainda, dos velórios residenciais, e os defuntos de suas relações se espalhavam por toda a cidade, e ele a percorria no tal fusca que só virava para um dos lados.

Rápido ao sacar a caneta tinteiro, seu nome quase sempre figurava no topo das listas de presença à entrada dos velórios, e aos amigos gostava de exibir, com orgulho de filatelista, sua fornida coleção de cartões recebidos em missas de sétimo dia como souvenir dos falecidos. Entre as páginas de seus livros, guardava flores secas discretamente subtraídas de caixões. Nesse departamento, a joia da coroa - fúnebre, no caso - era um cravo roxo colhido no ataúde do governador Olegário Maciel no ano de 1933, quando o nosso amigo, ainda jovem, se iniciava na rotina de frequentar velórios. Por falta de alternativas, chegou, na época, a penetrar em casas de desconhecidos, como que guiado por um faro excepcional para flores e círios ardentes. Numa delas, passou vergonha, quando à beira do caixão cutucou a pessoa ao lado, apontando o defunto:

- O que houve com ele?

- Morreu - disse o outro.

Não é maldade supor que sonhava com o dia em que abriria ele próprio seus salões, pela primeira vez na qualidade de anfitrião numa cerimônia fúnebre. Frustrou-se. Sua mulher, que adorava uma novidade, o convenceu a comprar uma cova no primeiro cemitério-parque criado na cidade - e, tendo morrido inesperadamente, a bem-amada acabou sendo ali, como naquela novela, o defunto inaugural, circunstância que fez do velório pouco menos que uma festa, animada pela mórbida curiosidade dos moradores das vizinhanças. Teve até carrinho de pipoca. De saída para o cemitério, o viúvo passou pelo dissabor adicional de surpreender a netinha com um dinheirinho na mão.

- Pra comprar chica-bom - explicou a menina, excitadíssima.

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