Arranha-céus na orla atrapalham vista para a praia

Visitantes do Morro do Itararé reclamam que paisagem está prejudicada, mas há quem veja nas torres símbolo de modernidade

MÁRCIO PINHO, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2011 | 00h00

Dois espigões de 33 andares em construção passaram a ocupar um dos principais cartões-postais de Santos, no litoral de São Paulo, obstruindo parte da vista que se tinha antes dos 7 km de praia e dos jardins da orla a partir do mirante do Morro do Itararé, na divisa com São Vicente.

As novas construções são polêmicas e causam estranheza em turistas que vão ao mirante e nos frequentadores assíduos do morro. Também há críticas de praticantes de paraglider porque, segundo eles, os edifícios são um empecilho dependendo da direção do vento.

As torres, porém, são elogiadas por quem vê nelas uma manifestação da modernidade e do desenvolvimento da Baixada Santista.

O terreno escolhido era antes ocupado pelo Caiçara Clube, no pé do morro. O futuro condomínio Enseada das Orquídeas terá 528 unidades com até 153 m².

As torres diferem da maioria dos edifícios da orla, que em geral têm entre 10 e 15 andares. Quem não mora nelas tem duas alternativas para uma visão panorâmica da orla e dos jardins: a Ilha Porchat, em São Vicente, e o Morro do Itararé.

Uma das frequentadoras, Alessandra do Carmo, de 30 anos, afirma que estranhou o espigão. "Mataram a vista, que é muito bonita. É exagerado. Poderia ter a metade do tamanho", afirmou, ao contemplar o cenário em um dos banquinhos do mirante.

O instrutor de paraglider Marcelo Calhau explica que, especialmente quando o vento vem de leste, as torres podem produzir um fenômeno chamado rotor, que faz com que o vento gire ao encontrar um obstáculo, sem continuar o trajeto normal. Isso prejudica o esporte, tanto que voos em direção à orla de São Vicente têm sido preferenciais em relação aos que iam para as praias de Santos. "A vista também ficou esquisita", opina o esportista.

O turista paranaense Alcimar Alves dos Santos, de 40 anos, é outro crítico. Eles questionou por que a prefeitura permitiu a construção em vez de aproveitar a vista como ponto turístico. "Se ficasse mais alguns quarteirões dentro da cidade não atrapalharia em nada. Na orla deveriam ficar os prédios mais baixos."

Aprovação. O secretário de Planejamento de Santos, Bechara Abdalla Pestana Neves, afirma que o projeto passou por diversos departamentos e que apenas recebeu aval após analisados os impactos que teria em infraestrutura, meio ambiente, trânsito. Admite, contudo, que não foi analisado um possível impacto visual ou turístico.

A construtora Gafisa diz que o condomínio é desenvolvido "respeitando todas as exigências necessárias e tem todas as autorizações para ser construído com essas características e nessa localização". A construtora informou ainda que o bairro passa por revitalização e incorpora agora o conceito de "condomínio-clube".

O crescimento da oferta imobiliária retrata o desenvolvimento da região, impulsionada pelas descobertas do pré-sal e o crescimento do porto. O m² supera R$ 6 mil na orla, valor semelhante a áreas nobres de São Paulo.

Por isso, a chegada dos prédios altos é vista com bons olhos por muitos santistas. "É um sinal de crescimento, de que o dinheiro está vindo para a região", diz Renata Silva, de 25 anos, para quem a arquitetura dos novos empreendimentos deixa a cidade com mais cara de "moderna".

Os espigões do bairro de José Menino refletem essa nova tendência na orla. Outro prédio, no bairro do Gonzaga, chama a atenção por seus 29 andares de apartamentos. Na Ponta da Praia, vários se destacam.

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