TV Estadão | 14.09.2015
TV Estadão | 14.09.2015

Armas de execuções por PMs podem estar ligadas a chacina

Pistolas apreendidas em mortes no dia 7, no Butantã, serão confrontadas com cápsulas dos assassinatos em série em Osasco

Alexandre Hisayasu, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Duas armas, uma pistola calibre 380 e outra 9 mm, apreendidas nas execuções de Paulo Henrique de Oliveira e Fernando Henrique da Silva, mortos por policiais militares em 7 de setembro, no Butantã, zona oeste, serão confrontadas por peritos com as cápsulas achadas nos locais onde ocorreram os assassinatos da maior chacina da história do Estado.

As mortes em série deixaram 19 mortos e 5 feridos, em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, no dia 13 de agosto. A suspeita é de que as armas foram usadas nos dois casos. Onze PMs estão presos, acusados pela Corregedoria da Polícia Militar de participar do assassinato dos dois rapazes. As armas foram encaminhadas ao Instituto de Criminalística (IC) na semana passada para realização da perícia. O pedido foi feito por policiais do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).

A conclusão dos trabalhos deve levar até 30 dias. A investigação acredita que os PMs colocaram as armas nos locais dos crimes para forjar um suposto tiroteio para justificar a morte de Silva e Oliveira. Se a perícia comprovar que as duas armas aparecem nas execuções e na chacina, os 11 PMs passarão a ser investigados também pelas 19 mortes. Até agora, apenas o soldado Fabrício Emmanuel Eleutério está preso por suspeita de envolvimento. Ele sempre negou as acusações.

Imagens gravadas de câmeras de segurança e de celular são as principais provas da Corregedoria da PM e do DHPP para incriminar os 11 policiais. Silva e Oliveira estavam com uma moto roubada e tentaram roubar outra, quando foram vistos pelos PMs. Durante a perseguição, abandonaram a moto e se separaram para tentar escapar. 

Silva correu para uma casa e acabou preso no telhado. Imagens mostram que um PM, identificado como Samuel Paes, dominou o rapaz, que é levado até a beira e jogado de uma altura de quase 9 metros. Em seguida, é possível ouvir dois disparos. A Justiça decretou a prisão de Paes, do tenente Angelo Felipe Mancini, do cabo João Maria Bento Xavier e dos soldados Paulo Eduardo Almeida Hespanhol, Flavio Lapiana de Lima, Fabio Gambale da Silva. Os PMs disseram que Silva estava com a pistola 9 mm.

Já Oliveira foi executado atrás de um muro. Imagens de câmeras de segurança mostram ele saindo de trás de uma lixeira, tirando a camisa e se rendendo aos policiais. Algemado, é levado para a calçada, tem as algemas retiradas e, em seguida, é baleado com tiros no abdome. Um PM foi filmado colocando uma arma nas mãos de Oliveira.

Segundo a Corregedoria da PM, o soldado Tyson Oliveira Bastiane atirou no rapaz, enquando Silvano Clayton dos Reis é quem tira a arma, uma pistola calibre 380, da viatura e coloca na cena do crime. Os dois e os soldados Silvio André Conceição, Mariane de Morais Silva Figueiredo e Jackson da Silva estão presos por suspeita de participar do assassinato.

Nesta quarta-feira, 16, Bastiane e Reis foram ouvidos no DHPP. Eles se recusaram a prestar depoimento e disseram que só vão dar declarações na Justiça. Na próxima semana, os outros três soldados envolvidos na morte de Oliveira serão chamados pelo departamento. Para o promotor Rogério Zagallo, não há dúvidas de que os PMs forjaram uma cena de confronto para enganar a Justiça. “As imagens provam que eles mentem”, disse.

O secretário da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, disse que os 11 serão processados e expulsos da Polícia Militar. Outros quatro policiais suspeitos cumprem prisão administrativa e ficarão afastados das ruas até o fim das investigações.

A soldado Mariane de Morais Silva Figueiredo, de 26 anos, é a única mulher entre os 11 PMs presos. Segundo o promotor Rogério Zagallo, ela está envolvida na morte de Paulo Henrique de Oliveira juntamente com outros quatro soldados. “Ela foi conivente com toda a situação. As imagens deixam claro que ela fica em uma posição de sobreaviso para dar cobertura para os outros policiais. Houve omissão, no mínimo”, disse. À Corregedoria da PM, Mariane afirmou que ouviu tiros quando chegava no local e, depois, viu Oliveira baleado.

Reação. Apontado pela Corregedoria da Polícia Militar como o principal suspeito por atirar em Paulo Henrique de Oliveira, que estava dominado e desarmado, o soldado Tyson Oliveira Bastiane, de 26 anos, disse no mais recente depoimento que o rapaz atirou nele primeiro e a sua reação foi apenas se defender dos tiros.

O Estado teve acesso ao inquérito policial-militar que apura o caso. Bastiane prestou depoimento na Corregedoria, no dia 9 de setembro (dois dias depois do crime) e, na condição de indiciado, afirmou que “viu uma lixeira grande se abrindo, e de lá saiu um indivíduo (moreno, de compleição física normal, não se recorda suas vestimentas) portando uma pistola (não sabendo declinar suas características), efetuando disparos em sua direção (não sabendo precisar a quantidade de disparos)... O declarante revidou imediatamente com disparos de arma de fogo (não soube precisar a quantidade”. Já o soldado Silvano Clayton dos Reis, de 31 anos, disse aos corregedores do Estado que ouviu disparos e, depois, viu Oliveira sair detrás de uma lixeira e se jogar no chão.

Durante a ação, Reis afirmou que encontrou a suposta arma de Oliveira, uma pistola de calibre 380, jogada na calçada e guardou na cintura. E quando foi até a viatura tinha a intenção de deixar espaço no banco traseiro para socorrer Oliveira. 

“Que a sua intenção, seria ‘limpar o banco’ para socorrer o indivíduo ao pronto-socorro... Que neste mesmo momento viu que não poderia socorrer o indivíduo e voltou para a frente da viatura. Que neste momento a arma de fogo que o indivíduo portava, e que estava em sua cintura, quase caiu. Que então retirou a arma de fogo de sua cintura e passou a segurá-la com a mão direita”, afirmou no depoimento.

Segundo Rogério Zagallo, os depoimentos dos PMs fariam sentido se não existissem as imagens das câmeras de segurança. “A investigação prova que eles não estão falando a verdade.”Anteontem (terça-feira), a Justiça comum decretou a prisão temporária dos 11 PMs por 30 dias. A Justiça Militar fez o mesmo na semana passada. Segundo o promotor, a investigação continua para identificar outros suspeitos. 

Tudo o que sabemos sobre:
São PauloPMGeraldo Alckmin

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.