CLAYTON DE SOUZA/ESTADAO
A promessa da gestão Fernando Haddad (PT) de combater o consumo de drogas em minicracolândias espalhadas por bairros da capital ainda permanece no papel.  CLAYTON DE SOUZA/ESTADAO

PROGRAMA de haddad CONTRA CRACOLÂNDIAS nos bairros EMPERRA

Expansão do projeto para além do centro, prevista desde maio, até agora não saiu do papel; iniciativa havia sido anunciada em janeiro

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2015 | 03h00

SÃO PAULO - A promessa da gestão Fernando Haddad (PT) de combater o consumo de drogas em minicracolândias espalhadas por bairros da capital ainda permanece no papel. A medida anunciada em janeiro é uma expansão do programa De Braços Abertos, já implementado na cracolândia da Luz, no centro, que oferece moradia, tratamento e emprego aos pacientes.

O atraso de cinco meses nas ações é justificado por dificuldades na licitação dos trailers que prestarão atendimento multidisciplinar, segundo a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. Procurada pelo Estado, agora a pasta informa que o serviço vai começar nesta semana. Seis regiões, porém, continuam sem atendimento – Lapa, Vila Mariana, Santo Amaro, M’Boi Mirim, Santana e Cidade Tiradentes.

Na Subprefeitura da Lapa, zona oeste, o atendimento será no Portão 9 da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), na Vila Leopoldina. A região, com prédios de classe média alta, convive com a formação de fluxos diários – a aglomeração de usuários de crack para uso da droga – em diversas ruas há, pelo menos, cinco anos.

“Não tem remédio para isso. Tem hora que tem 20 pessoas e, às vezes, tem 200. Só quem ajuda é a comunidade, mas eles vendem tudo que ganham”, diz o marceneiro Ednaldo Cort Moreno, de 59 anos. Morador da região há 45 anos, ele afirma que não são realizadas ações de assistência social na área. “Quem vem aqui são os pastores das igrejas. Mas não tem jeito, eles sempre voltam para a droga.”

Na última sexta-feira, em meio a barracos improvisados na Rua Professor Ariovaldo Silva, o Estado flagrou pequenos grupos de viciados que acendiam as pedras em seus cachimbos durante o dia e fumavam crack no local.

Morador de rua, França Carvalho, de 38 anos, preferiu não dizer há tempo quanto está entre aqueles que perambulam no entorno da Ceagesp, mas confirmou a falta de ações assistenciais. “Só quem ajuda é o pessoal da saúde. Eles trazem remédio.”

Entrave. O compromisso de Haddad se arrasta desde agosto do ano passado, quando foi feito o anúncio de que o serviço descentralizado seria realizado. Na época, um mapeamento das regiões mais problemáticas foi feito. A partir do levantamento, ficou decidido que a ação começaria nesses seis pontos da cidade.

Em julho deste ano, um convênio foi assinado com três entidades: Instituto Social Santa Lúcia, Instituto Fomentando Redes e Empreendedorismo Social e Centro de Recreação e Desenvolvimento da Criança Especial. O investimento é de R$ 2.724.582,08 – o governo federal já fez o repasse.

Diante do atraso, o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que a expansão das ações para usuários de crack é importante para toda a cidade. “Não podemos imaginar que um programa como esse (De Braços Abertos) vai dar conta de toda a população. A gente tem a nossa grande cracolândia, mas temos focos importantes em outros locais que foram detectados há vários anos.”

Silveira afirma que a demora na implementação do programa nos bairros pode ter consequências significativas ao longo dos anos, como a formação de fluxos maiores.

Integração. Arthur Guerra de Andrade, coordenador do Programa de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, também destaca a importância de medidas de redução de danos descentralizadas. “Nenhum médico que lida com a questão de drogas vai ser contra a política de melhorar a saúde pública dos usuários. Vejo com bons olhos uma política de expansão.” Ele diz, porém, que o trabalho deveria ser integrado com políticas estaduais, além de ter uma avaliação periódica dos usuários.

O trailer da zona norte ficará na Praça dos Maçons. Na zona sul, os pontos são Avenida Jabaquara, Praça Décio Cineli e Rua Antonio de Sena – Vila Mariana, Santo Amaro e M’Boi Mirim, respectivamente. Na zona leste, a unidade de Cidade Tiradentes será na Estrada do Iguatemi.


Tudo o que sabemos sobre:
cracolândiaSão PauloPrefeitura

Encontrou algum erro? Entre em contato

‘Com os trailers, vamos aonde o fluxo está’

Luciana Temer, secretária de Assistência e Desenvolvimento Social, fala sobre projeto de levar atendimento a cracolândias

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Quase um ano após o convênio entre a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), feito em dezembro - que forneceu a verba necessária para o projeto De Braços Abertos -, o Serviço Especializado de Abordagem Social 4 (Seas 4; nome oficial do programa nos bairros) deve começar a funcionar nesta semana. A dificuldade para fazer a licitação de aluguel dos veículos foi o maior entrave, segundo a secretária Luciana Temer.

A senhora informou em janeiro que o programa começaria em maio. Por que isso não ocorreu?

Foi muito difícil conseguir licitar os trailers. Antes de começar a licitação, é preciso ter três orçamentos para ter os parâmetros para o pregão eletrônico, mas tivemos dificuldades de conseguir três empresas que alugassem trailers com as características específicas que a gente precisava, como banheiro e sala de atendimento.

Em qual etapa o projeto se encontra no momento? Quando deve começar o serviço?

Os trailers já foram mandados para as subprefeituras e vão ser distribuídos nos próximos dias. Eles chegaram ontem (quinta-feira). Cada subprefeito se responsabilizou por sua área, porque precisa ter ligação elétrica para o trailer. Já temos os locais onde eles vão ficar. As equipes estão prontas e os trailers estão aí. Deve começar no fim da semana que vem. Da nossa parte, está tudo certo.

Assistentes sociais já estão trabalhando nos locais onde os trailers vão atuar?

Sim. Em Santo Amaro, por exemplo, o subprefeito, com as equipes de assistência social e de saúde, tem feito ações há um ano.

Mas na Vila Leopoldina usuários dizem que notam apenas a presença de agentes de saúde.

Na (Subprefeitura da) Lapa a equipe de saúde é mais presente do que de assistência social. Isso acontece em alguns territórios. Agora, com o trailer, a gente vai reforçar a equipe de assistentes sociais.

Por que o Instituto Social Santa Lúcia será o responsável pela execução do projeto nos bairros de Vila Mariana, Lapa, Santo Amaro e Santana?

Na assistência social há entidades pequenas e grandes. As menores têm muito vínculo com o território e as entidades grandes, como o Santa Lúcia, atuam na cidade inteira.

Os trailers podem mudar de lugar logo após a instalação?

A ideia do trailer é poder ir aonde o fluxo está. Pode acontecer de, quando a gente chegar, em vez de ser algo simpático, fazer com que os usuários mudem de lugar. Pode haver mudança (de endereço). Por isso não é uma casa fixa.

Tudo o que sabemos sobre:
cracolândiaLuciana Temer

Encontrou algum erro? Entre em contato

Programa De Braços Abertos atende 505 pessoas na Luz

Oito crianças estão entre os cadastrados de projeto de redução de danos; 2 hotéis foram descredenciados por suposta ação do tráfico

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Em janeiro do ano passado, a Prefeitura de São Paulo implementou o programa De Braços Abertos na cracolândia, na Luz, região central. Sem cobrar que os usuários abandonem o vício, o projeto de redução de danos oferece moradia, trabalho e assistência médica aos beneficiários. Segundo a gestão, 505 estão cadastradas no programa, incluindo oito crianças.

Os beneficiários ficam hospedados em hotéis, mas, desde o início do programa, dois estabelecimentos já foram descredenciados. O motivo teria sido a ação do tráfico de drogas nesses locais. A reportagem tentou falar com proprietários de hotéis que estão credenciados no De Braços Abertos, mas eles não quiseram se pronunciar.

No balanço de um ano do programa, a Prefeitura informou que houve redução de 80% no fluxo na região. Antes da implementação, o fluxo concentrava 1.500 pessoas por dia. No entanto, a movimentação no local continua. Na sexta passada, a aglomeração estava na Alameda Dino Bueno.

De acordo com a secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Luciana Temer, o trabalho de assistentes sociais deve ser intensificado na região. “Um dos serviços que a gente vai reforçar é o da Luz. Fizemos um novo chamamento, porque temos de locar uma casa para a equipe da assistência social”, diz.

Luciana explica que não será uma nova unidade do programa, mas um ponto adicional para receber profissionais que vão atuar na região. “A gente quer também ampliar a participação no fluxo.” O prazo para que o ponto seja inaugurado não foi divulgado.

Guarda civil. A segurança na região já foi reforçada. Em reportagem de 30 de agosto, o Estado mostrou que o efetivo de agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) mais que dobrou, saltando de 100 a cada 24 horas para 250. Um dos objetivos é evitar a montagem de barracas dos usuários.

Tudo o que sabemos sobre:
cracolândiaPrefeitura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.