Argentinos voltam a ter carnaval após 35 anos

Feriado foi abolido na ditadura; militares temiam que terroristas se fantasiassem

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

08 Março 2011 | 00h00

Os argentinos vivem desde ontem seu primeiro carnaval em 35 anos. Em setembro, a presidente Cristina Kirchner recriou o feriado e acabou com a proibição do general Jorge Rafael Videla (1976-83). Mais de duas centenas de "murgas" (blocos) saíram às ruas em diversos bairros portenhos. "Esse feriado recuperou as águas que fazem com que o navio do carnaval volte a navegar", filosofa Félix Loiácono, do bloco La Garufa.

As murgas se caracterizam pela informalidade. Para fazer parte delas, não é preciso saber dançar - basta aparecer fantasiado. Já no interior do país o carnaval é celebrado de diferentes maneiras. Enquanto nas províncias do norte, como Salta e Jujuy, os festejos possuem forte marca indígena, em Gualeguaychú, na fronteira com o Uruguai, inspiram-se no Rio, com carros alegóricos e baterias. Os gualeguaychenses têm até um "corsódromo".

O carnaval argentino sofreu seus primeiros obstáculos com a morte de Evita Perón, em 1952. O governo do viúvo, Juan Domingo Perón, implantou um clima de luto que predominava sobre o cotidiano. Foram suspensos os carnavais de 1953, 1954 e 1955. A queda de Perón foi acompanhada pela volta do carnaval, em 1956. Mas, em março de 1976, um golpe militar comandado pelo general Videla fez o carnaval novamente desaparecer da agenda argentina. O ditador proibiu o uso de fantasias com o argumento de que guerrilheiros poderiam esconder-se sob as máscaras e realizar ataques terroristas. Além disso, impediu reunião de pessoas para festejos públicos e suprimiu o feriado de carnaval.

A volta da democracia, em 1983, não implicou recuperação imediata do carnaval. As murgas lentamente foram ressurgindo ao longo dos anos 1990. Em 1998, existiam 30. Mas a crise de 2001-2002, que mobilizou a sociedade, revitalizou festejos populares. E hoje já são mais de 200 blocos registrados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.