Áreas preservam fauna e flora de Mata Atlântica

Laudos feitos a pedido de moradores revelam existência de vasta biodiversidade; há suspeita até de alteração de cursos d'água

Bruno Ribeiro e Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

09 Março 2014 | 02h01

Uma curta caminhada pela área de mata virgem localizada entre a entrada do Parque Burle Marx, na zona sul de São Paulo, e a Marginal do Pinheiros, em um dos terrenos ameaçados pelos megaempreendimentos, já permite esquecer que se está no coração da maior cidade do País. O barulho do curso da água, dos pássaros e dos insetos combina com a abundância de árvores, indicando que ali há uma rica diversidade de fauna e flora - isso tudo a menos de 200 metros do trânsito da Marginal do Pinheiros.

O Estado fez uma visita ao terreno na quinta-feira passada, guiado pelo advogado Roberto Delmanto, autor da representação feita em nome de três associações de moradores dos bairros da região ao Ministério Público Estadual (MPE) sobre o caso. "Construíram um muro aqui, ninguém sabe quem, para represar a água. A presença de nascentes e cursos d'água é um dos pontos que pode inviabilizar a destruição do terreno", diz o advogado.

Há um muro de concreto nas bordas de um dos lotes do terreno. A área atrás dele tem nível maior do que a parte da frente. "Aterraram tudo", afirma Delmanto. Mas, logo depois dessa área mais alta, há um brejo, com água limpa e vegetação, cercada por árvores marcadas com plaquinhas metálicas.

"Impressiona a sobrevivência de fauna típica das formações alagáveis, como a presença de moluscos, pequenos peixes e até aves aquáticas nidificando como a marreca-caneleira, ainda mais levando em consideração a presença das poluídas Marginais com seu tráfego pesado e o morto Rio Pinheiros", escreveu o botânico Ricardo Cardim, autor de um laudo pericial sobre a vegetação da área anexada à representação feita pelos moradores ao MPE.

O laudo tem fotos de macrófitas, vegetação aquática que sobrevive ali porque há água limpa, e chega a ter imagens de um ninho com 11 ovos de uma espécie de pato que ainda sobrevive na região. Há até imagens de "pequenos peixes" que estão na água selvagem. Mas o trabalho é focado nas espécies de Mata Atlântica do local: jacatirãos, copaíbas, paus-violas, orquídeas nativas (uma raridade, segundo o laudo), jerivás, línguas-de-tucano mirins e figueiras-bravas, só para citar alguns exemplos.

"A área avaliada contempla diversos elementos importantes de uma biodiversidade original da cidade de São Paulo. Entretanto, dentre esses elementos, um deles apresenta imenso valor ambiental e histórico para os paulistanos: os trechos remanescentes das várzeas e florestas inundáveis do Rio Pinheiros, únicos sobreviventes dessa formação ecológica tão dilapidada", diz a conclusão do laudo. "Preservar tal área, em sua totalidade, é de suma importância", diz o botânico.

Ocupação. O outro terreno ameaçado é menos conservado. Ali, já não há vegetação rasteira ao redor das árvores marcadas com medalhas numeradas. Também não há sinal de água correndo por ali.

Quem passa pela Avenida Dona Helena Pereira de Morais, que liga a Marginal do Pinheiros ao Panamby, tem a falsa impressão de que a área é preservada. Isso porque a mata nas bordas do terreno foi mantida intacta - a vegetação foi retirada no miolo do terreno.

Hidrografia. Além do laudo botânico assinado por Ricardo Cardim, as associações contrataram um estudo hidrográfico da região, feito pelo geólogo Sergio Kleinfelder Rodriguez.

O estudo afirma que o terreno foi alterado para ocultar cursos d'água. "Pela topografia da região, há cursos d'água nesse terreno. Mas há talures e tubos ali que indicam que as nascentes ali foram aterradas", diz o pesquisador.

O laudo detalhado do terreno deve ficar pronto na semana que vem.

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