Área chique parisiense rejeita casas populares

Moradores alegam que arquitetura é 'bizarra' e brigam na Justiça contra projetos municipais elaborados para acabar com a crônica divisão social

Lizzy Davies, PARIS, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

Na periferia oeste de Paris, aninhado entre a verdura do Bois de Boulogne e largas avenidas ladeadas de árvores, um canteiro de obras está estranhamente calmo sob o sol enquanto pássaros pousam na terra recentemente limpa. Embora as placas de autorização anunciem o nascimento iminente de um complexo de blocos de apartamentos, o grafite rabiscado nas barreiras metálicas conta uma história diferente. Ele diz: "Aqui 135 HLM."

Neste bairro parisiense dos mais chiques, onde um quinto da população se qualifica a impostos sobre a riqueza porque seu patrimônio excede 790 mil e as ruas são repletas de carros Jaguar e mansões suntuosas, a sigla HLM - que significa habitação com aluguéis moderados - não é uma visão comum. Enquanto a prefeitura tenta fazer da acomodação social mais um traço da paisagem bem tratada do 16.º arrondissement (distrito de Paris), ela está percebendo que tem uma briga nas mãos.

Nos últimos meses, os quatro projetos de habitação social previstos para a região - incluindo esse que pretende criar 135 apartamentos extras a preços acessíveis - foram suspensos depois que moradores locais entraram na Justiça por causa dos estilos arquitetônicos "bizarros" e da preservação de áreas verdes.

"São argumentos falaciosos", disse Jean-Yves Mano, porta-voz de Habitação da prefeitura de Paris e conselheiro socialista da oposição local. "Eles simplesmente não querem ter pessoas em habitações sociais ao seu redor. É como se não quisessem pessoas da periferia pobre invadindo o 16.º e perturbando a paz e a segurança."

Proporção. Num reconhecimento de que a habitação é vital para resolver a crônica divisão geográfica e social, a prefeitura quer aumentar a proporção das HLMs de 16% para 20% até 2014. Isso vai demandar um acréscimo de 6 mil moradias por ano. As autoridades insistem para que as zonas oeste e central de Paris contribuam com a sua parte. Por enquanto, porém, apenas 2,5% das habitações do 16.º são sociais. No 19.º distrito, na zona nordeste, a cifra é de 35%.

Embora rejeitem sugestões de que sua zelosa campanha está focada na habitação social como tal, os moradores do 16.º recitam a ladainha de problemas separados que encontraram em cada um dos projetos habitacionais. "Nossa posição é que não se deve construir nas áreas verdes, nem prédios públicos nem privados", disse Eric Lefranc, presidente de uma associação de moradores que tem lutado para impedir o projeto. O consultor e fotógrafo, que vive perto do canteiro de obras, insiste que ficaria feliz com a habitação social - desde que ela "se integre bem".

"Não é que nós não os queremos", disse Martine, uma moradora que passava perto do local. "É que esses prédios... são pavorosos."

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