Arco de Cupido, Marca de Vênus...

Eu não esperava achar tanta coisa quando, na semana passada, fui mexer no umbigo - quer dizer, quando tratei aqui da "flunfa", aquele algodãozinho que se aninha nesse ponto de nossa anatomia. A ideia, juro, era apenas dar conta da minha dificuldade em achar alguma coisa, concreta ou abstrata, que não tenha nome - desafio que, aliás, segue de pé, à espera de contribuições. Pensava ser o caso do tal algodãozinho, mas não só me frustrei como provoquei reações de variada ordem. "Estou chocado!", boquiabriu-se lá em Berlim o Felipe. "Eca!", enojou-se por aqui a Renata, enquanto a Paola anunciava, enigmática: "Flunfei".

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h07

Já o Reinaldo, afeito por ofício aos labirínticos meandros da mente, fixou-se no inusitado da escolha de Georg Steinhauser, o biólogo austríaco que passou anos estudando a flunfa. Reinaldo foi desencavar outra relevante pesquisa, essa na Universidade de Indiana, sobre as cócegas e sua relação com o sexo. O assunto é gênero, explicou - e foi ao umbigo da questão: mulheres sentem mais cócegas? Em seguida, descortinou novo horizonte de perquirição científica: "e o nosso cafuné, pode ser considerado cócegas?"

De Curitiba, o Luís endereçou ao cronista uma provocação: como é nome daquela prega vertical que liga o nariz ao lábio superior? Pra quê! Como no caso da flunfa, uma vez mais larguei o que estava fazendo - para um tempo depois, à míngua de certezas, arriscar: comissura?

Quem manda ser leviano? A Silvana, que seguia o papo no Facebook, entrou em cena para nos puxar as virtuais orelhas: "Onde é que estamos?", indignou-se a moça. "Chamar de 'prega' e de 'comissura', palavras tão ranzinzas, aquela bonita covinha instalada entre o lábio superior e a base do nariz? Pois saibam que fuçando alfarrábios encontrei denominação mais respeitosa para com este ornamento (bem, ao menos enquanto somos jovens) facial: Coluna de Filtrum!" Não ficou nisso a sábia Silvana: "Sim, senhores, coluna, como a dórica, como a jônica!" E tem mais: a linha arqueada na base do sulco vem a ser o "arco de Cupido".

Assim flechado, o Luís entregou os pontos: "Legal, Silvana", aplaudiu - e trouxe subsídios ao debate: "A partir de suas informações, fucei e descobri uma forma simplificada de se referir àquela covinha: filtro labial. Encontrei também algo que chamam de 'philtrum moustache' - ou seja, o bigodinho do Hitler ou do Chaplin."

"Essa área sempre me intrigou", disse o Luís. "Nunca entendi por que ninguém fala sobre ela, nem na literatura, nem na vida real. E está ali, no meio da cara. Conheci moças que tinham lindas 'colunas do filtrum', e 'sulcos do filtrum' pra lá de convidativos, mas nunca soube como dizer isso a elas. Ainda é difícil encaixar isso de coluna e sulco numa conversa mais íntima. E será que filtrum é o conjunto sulco + coluna?"

Que seria de nós sem a Silvana, que outra vez veio lançar graça e luz sobre a matéria? "O sulco", esclareceu, "é a parte do meio, a covinha em si, e as laterais, as colunas do filtrum." Tão animada quanto didática, a moça agregou mais informação: sabem como os medievais chamavam "aquele espaço entre os dentes da frente, quando as pessoas os têm separados? Marca de Vênus!"

O papo parecia encerrado quando veio o Eugênio com novo desafio: se tudo tem nome, até o algodão do umbigo, algum haverá também para "aquela matula que o andarilho leva na ponta de um cabo de vassoura apoiado no ombro". Reduzido ao silêncio dos ignaros, o jeito foi botar na roda a questão que o Eugênio pendurou nos meus ombros. Em minutos encheu-se de hipóteses minha caixa postal - mas isso fica para a próxima. Quer dar seu palpite?

Por ora, limito-me a lembrar uma conversa, no palco de uma Flip, em que o grande Xico Sá registrou a falta de nome para uma recôndita região do corpo humano - o que me proporcionou um instante de glória lexicográfica ante a plateia: chama-se períneo. Sim, já estive lá. Mas veja a que ponto nos trouxe uma conversa que principiou num umbigo recheado de flunfa, e que veio dar nessa terra de ninguém cuja denominação o frequentador Xico Sá desconhecia. Você, que também esteve lá, sabe que convém parar por aqui.

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