'Aqui há muita cultura, mas poucas conexões'

Organizadora de livro sobre cidades criativas diz que todo lugar tem potencial de se reinventar e favorecer inovações

Entrevista com

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2011 | 03h03

Você sabe o que são cidades criativas? O fenômeno econômico e cultural foi estudado pela economista Ana Carla Fonseca, virou tese de doutorado e até livro organizado por ela: Cidades Criativas - Perspectivas. O conteúdo pode ser acessado gratuitamente pelo site www.garimpodesolucoes.com.br.

O que é uma cidade criativa?

Ela une três características: inovação, conexão e cultura. Inovar é enxergar possibilidades e soluções. Na Noruega, por exemplo, um problema sempre afetou o turismo na cidade de Bergen: chuva demais. Começaram a perceber que, em tempos de falta de água potável, isso agora pode ser trabalhado como um atrativo. Já as conexões são entre público e privado, local e global. Entender as relações entre bairros, mostrando como eles podem ser complementares. Assim a cidade deixa de ser um arquipélago para se tornar um sistema. A cultura, por sua vez, deve ser entendida como um conjunto de manifestações, bens e serviços com impacto econômico. E como responsável por criar um ambiente mais favorável às inovações.

Como você avalia a situação de São Paulo nesse cenário?

Aqui temos muitas inovações, muita cultura, mas poucas conexões. Isso porque circulamos pouco por causa das dimensões da cidade e pelo trânsito. Fiz um estudo no qual mostro que as atrações culturais são importantes para forçar o deslocamento. Quando há uma oferta cultural entendida como única, as pessoas não hesitam em se locomover pela cidade.

Que cidade no Brasil é exemplo de criatividade?

Guaramiranga, no Ceará, cidade de 5 mil habitantes a 100 km de Fortaleza. No período áureo do café, eles produziam muito e, depois, caíram no ostracismo. Antigas serestas e tertúlias promovidas por famílias abastadas inspiraram duas produtoras culturais de Fortaleza, que criaram o Festival de Jazz e Blues na cidade. Já está na 12.º edição, em uma cidade que nem tinha infraestrutura para receber turistas. Mas inventaram: fazendas se converteram em pousadas, gaiteiros e sanfoneiros foram mapeados... Guaramiranga se reconectou à sua história, e o festival assumiu papel reconhecido na economia da região.

Qualquer cidade pode se tornar criativa?

Sim. Toda cidade tem sua singularidade, ainda que nem sempre seja fácil de enxergá-la.

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