ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Feira coloca cidade no clima da Parada LGBT

Com mais de 60 tendas no Vale do Anhangabaú, evento teve oficinas de drag queens, teste HIV grátis, DJs, dstribuição de preservativos e performance de artistas

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

26 Maio 2016 | 18h27

Entre as 60 tendas da 16ª Feira LGBT, espalhadas ontem no Vale do Anhangabaú, uma em particular chamava atenção: o estande de oficina de drag queens. Em início de carreira como drag, o participante da oficina Paulo Sérgio Viana, de 25 anos, é Yasmin Carraroh quando montada e ontem aproveitou a aula para descer do salto e aprender mais técnicas de maquiagem, comportamento e postura. "Por mais que eu já seja pronto, sempre aprendo como esconder melhor a sobrancelha, como me portar no palco e como não ter medo ou vergonha numa apresentação", explicou.

A Feira é um aquecimento à Parada LGBT, que ocorrerá no próximo domingo, 29. O evento reuniu tendas com teste HIV grátis, DJs e dstribuição de preservativos, além do Conselho Regional de Psicologia, as Mães Pela Diversidade e a Comunidade Cidade Refúgio (igreja evangélica que inclui homossexuais, transexuais e travestis). Desde 10 horas, um palco estava montado para apresentação de performances de artistas LGBT, previsto para terminar às 22 horas.

A oficina foi ministrada pelos quatro integrantes do Esquadrão das Drags, um projeto da Secretaria Estadual de Cultura. Sissi Girl, que não quis revelar a idade porque "drag é atemporal", é uma das participantes do Esquadrão e explica que a proposta do grupo é transmitir mensagens de cidadania, prevenção e respeito.

"O Esquadrão começou porque os agentes de saúde iam entregar preservativos e as pessoas não pegavam. Então decidiram criar uma forma de chamar atenção para a causa. Somos coloridas e irreverentes para atrair, principalmente, os jovens. E a eles nós indicamos, por exemplo, onde ele pode fazer teste rápido", conta Sissi, que é enfermeiro.

Enquanto os dez alunos da oficina se maquiavam na mesa, as quatro drags se alternavam no microfone passando mensagens de conscientização sobre sexo seguro. Enquanto alguns aprendiam a se maquiar, perto dali outro grupo dançava diante de uma das tendas.

Pelo menos 200 membros da Comunidade Cidade Refúgio estiveram ontem na Feira para evangelizar os participantes. A pastora Lanna Holder explica que a Cidade Refúgio foi criada para "incluir os que foram excluídos". "Deus os criou assim e os aceita assim", disse, em referência aos homossexuais e às transexuais. 

Inclusão. Lanna conta que a Comunidade evita responder diretamente às críticas de fundamentalistas da comunidade evangélica que não os reconhece como Igreja. "Nossa resposta é a inclusão. Precisamos mostrar um lado de Deus que os homossexuais desconhecem. Deus não é aquele que manda os gays para o inferno. Eles (fundamentalistas) usam a palavra para matar e nós, para dar vida", afirmou.

A tenda do Conselho Regional de Psicologia distribui há pelo menos seis anos panfletos informativos aos frequentadores da Feira. Luís Saraiva, conselheiro-presidente da Comissão de Ética e um dos coordenadores do Núcleo de Sexualidade e Gênero do Conselho, destacou que entre as principais dúvidas ainda lidera a preocupação dos homossexuais com a patologização.

"As pessoas que param na tenda querem saber se os psicólogos podem oferecer cura gay, se esse atendimento pode incluir reversão, e nós orientamos que sejam feitas denúncias junto ao Conselho contra esses psicólogos", disse. Saraiva ressaltou, porém, que o número de denúncias ainda é baixo, por falta de conhecimento sobre os direitos do usuário a um "serviço de qualidade".

O casal Luiz Dantas, ator de 22 anos, e Felipe Rodrigues, estudante de 23, foram à Feira por considerar que o evento é um ato político e não somente uma festa. Dantas afirmou que o País vive uma "onda de retrocessos", especialmente na questão trans, com a retirada do direito do nome social das transexuais. O tema da edição da Parada deste ano é pela aprovação da Lei de Identidade de Gênero. "O tema foi escolhido antes de acontecer essa retirada de direitos e ser a bandeira da Parada é importante porque dá destaque a uma luta que precisa de visibilidade", disse. 


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