'Aprendi e, hoje, sou um homem melhor'

Jornalista que sobreviveu a naufrágio na Antártida diz que ainda tem pesadelos e planeja escrever um livro

Entrevista com

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2012 | 03h04

"A adrenalina ainda não passou", diz o jornalista João Lara Mesquita, de 56 anos, ex-diretor da Rádio Eldorado, que no dia 7 de abril viu seu barco Mar Sem Fim naufragar na Antártida. Mesmo acumulando 60 mil milhas no mar, distância suficiente para quase duas voltas ao mundo, ele diz que nunca viveu emoção tão forte. Ainda dorme mal, tem pesadelos e voltou a fumar. Preparando um livro sobre a aventura, diz se sentir arrasado por ter deixado no fundo do mar a carcaça de seu barco, contribuindo para a poluição local. Atualmente, o jornalista escreve todos os dias no site marsemfim.com.br, onde junta material de outras viagens que fez pela costa brasileira e Antártida. No site, há 2 mil fotos, 45 horas de 90 documentários da costa brasileira, além dos cinco filmes da viagem que fez à Antártida em 2009.

Já deu para entender o que aconteceu?

Houve um fenômeno meteorológico que potencializa as três piores condições da Antártida. Chama-se "jato frio inercial", segundo me explicou o professor Rubens Junqueira Villela, um dos primeiros brasileiros a ir para a Antártida, ainda nos anos 1950. O vento, que já é forte, fica fortíssimo. O frio, que já é absurdo, desce ainda mais. Esse vento forte sopra todo o gelo para a Baía. O acúmulo de gelo acabou destruindo o barco, que ficou preso.

Chegaram a temer pela vida?

Em um momento como esse, tudo é dramático. É uma situação medonha. Mas não chegamos a ficar em risco. O máximo que poderia ocorrer era a gente subir em uma pedra. Os chilenos (da base que os socorreu) diziam ter certeza de que naufragaríamos em dois dias, mas eles estavam preparados para o resgate.

Quais são seus planos?

Essa é uma história dramática, tem componentes excepcionais para um livro. É preciso contá-la para expiar a culpa, para que sirva de exemplo para que outros aprendam. Eu aprendi e sei que hoje sou um homem melhor, um navegante melhor, um caráter melhor.

Que lições tirou do episódio?

Estive ao lado de pessoas excepcionais, que são pagas para salvar vida de gente que elas nunca viram. Como os chilenos e argentinos que me ajudaram. Não perguntaram meu nome, de onde sou, onde moro e se dedicaram para me salvar e arrumar meu barco. Por 12 dias, trabalho dificílimo. O que você precisa? Ele batalha por você. Foi uma lição de humildade, perseverança, luta e solidariedade.

E o que foi pior?

A carga emocional é fortíssima. Até hoje, eu não consigo dormir direito, tenho pesadelos. Eu tenho filhos pequenos, pais octogenários, irmãos que sofreram enquanto eu estava por lá. Isso me deixou péssimo. Sou uma pessoa que não gosta de incomodar os outros. E, de repente, dei trabalho para meio mundo. Marinha brasileira, profissionais estrangeiros, minha família. Eu me sinto culpado e um livro vai me ajudar.

E pretende voltar à Antártida?Não descarto a possibilidade, mas acho que sou mais útil na costa brasileira, filmando e documentando a costa do País. Amanhã (hoje) vou na TV Cultura para falar em retomar o projeto. Em última hipótese, alugo barcos nos Estados. Não vai ter o mesmo charme, mas pelo menos sai o documentário.

É isso que pretende fazer daqui para frente?

Sim, é preciso informar sobre o mar. As pessoas mudam de atitude quando bem informadas. Quando falamos em óleo do mar, as pessoas pensam em grandes desastres. Apenas 13% de todo óleo que está no mar é de desastres. A maioria vem do automóvel. 70% da população do mundo mora na faixa costeira. Quando a fumaça sai do escapamento, aquilo é o óleo. Quando chove, volta para o oceano. As pessoas não sabem. Quando as pessoas têm informação, mudam a postura.

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