Aposentado mata a mulher com dois tiros e se suicida no litoral

Motivo do crime teria sido intimação para separação com divisão de bens; ele separou dinheiro para funerária

Rejane Lima, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2008 | 20h14

O aposentado José Alfredo da Silveira Rocha, de 76 anos, matou a mulher Jacinta Pereira, de 75 anos, e depois se matou na manhã de quinta-feira, 18, na Praia Grande, na Baixada Santista. Os corpos foram encontrados dentro da residência do casal, no bairro da Guilhermina, depois que uma vizinha chamou a polícia ao desconfiar de algo errado pelo fato de Jacinta não ter aberto a janela ou escutado a campainha. O motivo da morte teria sido o recebimento de uma intimação para tratar da separação com divisão de bens. O casal vivia junto há 27 anos. No papel, Silveira era solteiro e Jacinta divorciada do primeiro marido, com quem teve três filhos. Todos eles moram em São Paulo e preferiam dar dinheiro para a mãe subir a serra a visitá-la no litoral, pois na casa de Jacinta, era preciso falar baixo para não incomodar Silveira. Há cinco anos o casal teve uma grande briga, por causa do golpe do bilhete premiado. Silveira não acreditava que a mulher tivesse sido enganada pela moça humilde que teria um bilhete da loteria e nunca a perdoou por ter sacado R$ 5 mil de uma conta conjunta sem consultá-lo. Depois disso, o aposentado foi morar na edícula do imóvel e parou de falar com a mulher. Amigos e familiares contam que Jacinta era apaixonada pelo marido e que por diversas vezes tentou a reconciliação. "Ela só o chamava de 'meu amor'", diz uma amiga. Na casa onde ocorreu a tragédia, o filho de Jacinta, Luiz Alberto Graci, de 46 anos, mostra os diversos bilhetes que a mãe escreveu para o marido. Frases como "meu eterno namorado" misturam-se a agradecimentos e demonstrações de esperança como "Deus vai te mostrar que nunca roubei nada". "Minha avó morreu de amor", desabafa uma das netas. Os filhos sabiam que a mãe estava sofrendo e relatam a teimosia dela em deixar o marido e se mudar para São Paulo. "Ela não gostava de deixar a casa, há duas semanas subiu para o aniversário da bisneta, mas estava desesperada para voltar", conta a filha Roseclair Graci, de 48 anos. Seu irmão Luiz, descreve a ganância do padrasto. "Primeiro ele comprava os mantimentos para ela, mas quando descobriu que ela conseguiu se aposentar por idade e receber um salário mínimo, parou de comprar as coisas". Segundo amigos e familiares, Jacinta Pereira era uma mulher espiritualizada (freqüentava a igreja católica e a Seicho-No-Ie), mãe e avó carinhosa, excelente cozinheira, boa amiga e simpática com toda a vizinhança. Em seu velório, uma das três coroas de flores foi enviada pela família de seu algoz, que veio para Praia Grande tratar da transferência do corpo de Silveira para o interior de São Paulo. Jacinta foi morta com dois tiros, um no ombro e outro na cabeça. Silveira disparou contra o próprio ouvido. Aposentado do Departamento de Estradas e Rodagem (DER), ele tinha fascínio por armas e usou um revólver calibre 32 no crime. Além do 32, foram apreendidos uma arma calibre 38, duas carabinas e uma espingarda na casa. Silveira deixou um envelope com R$ 2.500 em notas de 50 onde estava escrito "para empresa funerária". Além disso, deixou uma carta, na qual chama a esposa de "171", relata suspeitas de que ela o roubara e mostra indignação pelo advogado requerer para a mulher metade de seus bens: a casa onde moravam e uma poupança de R$ 46 mil.  "Roubar o que? Minha mãe vivia com pouco. Eu que comprei esses mantimentos que estão aí. Até uns pisos que sumiram do quintal ele falou que tinham sido roubados por ela", desabafa o filho. Vizinhas contam que Jacinta procurou um advogado com a intenção de que, diante do juiz, o marido optasse pela reconciliação.

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