AMANDA PEROBELLI/ESTADAO
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Após uma semana, Largo do Paiçandu ainda tem nuvem de pó

Vítimas do desabamento e vizinhos reclamam de dor de garganta e dificuldade para respirar; bombeiros procuram seis desaparecidos

Isabela Palhares, Juliana Diógenes e Ana Paula Niederauer, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Uma semana após o desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paiçandu, o pó e a fumaça ainda incomodam as vítimas e os vizinhos do local da tragédia. Moradores do prédio e vizinhos reclamam de dor na garganta, rouquidão e dificuldades para respirar. 

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Desde o incêndio, paira sobre os escombros uma fumaça branca. Uma nuvem de poeira se espalha a cada vez que o maquinário pesado retira entulhos em grande quantidade misturados à areia. Em uma praça perto do Paes de Almeida, parte dos moradores montou um acampamento e se recusa a ir para albergues da Prefeitura.

Cícera Maria da Silva, que vivia na ocupação havia dois anos, só conseguiu uma barraca na tarde de anteontem. Nos outros dias, dormiu em um colchão, na praça próxima do imóvel destruído. “Dormia ao relento. Acordava todos os dias sem voz e depois ia melhorando. O rosto fica encoberto de poeira. Não tenho saúde boa para aguentar uma situação como esta”, conta ela, de 58 anos.

Segundo o auxiliar de enfermagem Carlos Eleutério Barros, do Consultório na Rua, programa da Secretaria Municipal de Saúde, muitas famílias têm procurado o atendimento com dor de garganta e problemas respiratórios, por causa de poeira e pó. “Nos primeiros dias, as mães trouxeram muitas crianças com febre. Algumas já tinham asma, bronquite, que se agravaram com a fumaça”, diz.

Sofia, de 1 ano e meio, é a que está pior, com nariz entupido de coriza. “Tem coriza desde o primeiro dia que ficamos aqui. Tenho dado bastante água e suco para ela”, diz a mãe, Deise Rodrigues, de 31 anos, que tem mais quatro filhos. 

Asmática, Deise perdeu a bombinha ao fugir do fogo. “Meu olho já ardeu muito nos primeiros dias. Acho que agora me acostumei.” Com dinheiro recebido de doações, comprou outro aparelho. Donos de lojas e restaurantes do entorno ainda têm permitido aos sobreviventes do incêndio usar banheiros dos estabelecimentos. 

O pneumologista Hugo Goulart de Oliveira, chefe da unidade de endoscopia respiratória do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e Membro da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) afirmou que o material particulado (MP)inalável em suspensão, oriundo dos escombros, pode causar a proliferação de fungos e bactérias.

Segundo o pneumologista, a poeira que está no ar pode trazer problemas para o aparelho respiratório. " As crianças, idosos e alérgicos que estão expostos têm maior sensibilidade aos estímulos externos, portanto são os mais prejudicados", disse o médico, que prestou atendimento às vítimas da tragédia da boate Kiss. 

O pneumologista explica que o sistema respiratório não foi 'feito' para viver em um ambiente com poeira e poluição. " Ingerimos cerca de 7500 litros de ar por dia. São 6 litros de ar por minuto. Imagina a quantidade de ar que o nosso aparelho respiratório tem que filtrar", alerta Oliveira.

Oliveira afirma que a tosse e a produção de catarro são os primeiros sintomas relacionados à doenças como bronquite, bronquiolite, pneumonia entre outras. O médico lembra que o uso de máscara descartável pode ajudar na proteção das vias respiratórias contra poeira. 

Para os comerciantes, a fuligem também se tornou uma dor de cabeça. Em uma lanchonete na frente do Largo, os funcionários compraram máscaras e por dois dias as usaram durante o trabalho. “É uma poeira fininha, que fica impregnada na roupa. Imagina isso dentro do nosso corpo? A garganta fica seca demais”, conta o chapeiro Charles Magalhães, de 32 anos.

No Centro de Memória do Circo, na Galeria Olido, algumas peças do acervo estão cobertas com panos desde quarta. As maquetes, feitas por mestres circenses há quase dez anos, ficam na entrada do local e não podem ser transportadas pelo peso e pelo tamanho. “São peças importantes do acervo, com materiais delicados, que podem ser danificados com a poeira. Além disso, não sabemos quais substâncias podem ter no pó”, afirma Camila Montefresco, coordenadora do acervo.

Buscas. O Corpo de Bombeiros confirmou ontem mais um desaparecido. Parentes de Artur Hector de Paula, de 46 anos, que morava no local, registraram boletim de ocorrência de desaparecimento. Até agora, as equipes só encontraram os restos mortais de uma vítima: Ricardo Pinheiro, que estava sendo resgatado no momento em que o imóvel caiu. 

Ontem à tarde, Ricardo Luciano Lima, o Careca, que se identificava como liderança da ocupação, foi expulso do acampamento dos ex-moradores. 

Eles dizem que Lima estava proibindo moradores de relatarem à polícia e à imprensa que pagavam um “aluguel”, de até R$ 350, para viver na ocupação. Após uma discussão com uma moradora, Lima foi expulso do local. Outras duas pessoas, que se identificavam como lideranças, também deixaram o acampamento. A Polícia Civil vai investigar a cobrança de taxas em ocupações da cidade. 

Ontem, a Prefeitura também começou as vistorias de imóveis ocupados que apresentem algum risco. Os primeiros serão os comandados pela Frente de Luta de Moradia. A ideia é fazer duas ou três vistorias por dia. /COLABOROU BRUNO RIBEIRO

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