Após passar duas noites na prisão, 'Baderna' morreu

Suspeito de ter virado uma viatura no centro de SP, ele saiu de CDP a pé e pediu R$ 5 a um estranho na Marginal do Tietê

Entrevista com

Luciano Bottini Filho, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h03

Humberto Baderna morreu. Sobrou um rapaz franzino, de 1,60 metro, alguns quilos mais magro, de bigode e a cabeleira raspados por outros detentos antes de ganhar a liberdade provisória às 23h30 de quarta-feira. Suspeito de ter virado uma viatura policial em meio aos protestos dos professores paulistas, Humberto Caporelli, de 24 anos, saiu do Centro de Detenção Provisória de Belém 2 a pé, sem um tostão no bolso.

Foi caminhando pela Marginal do Tietê até conseguir R$ 5 de um estranho e chegar à casa de Luana Bernardo Lopes, de 19, "sua amizade colorida", também presa em flagrante pela Lei de Segurança Nacional. De volta à casa dos pais, em Mogi-Guaçu, no interior do Estado, Caporelli contou o que a rede social não revelou, após tirar seu nome do Facebook.

Você é um black bloc?

Tenho uma posição bem libertária, bem crítica. Para mim isso era utópico, o povo unido na rua. Eu trabalho na rua, faço grafite. Fui para São Paulo, acabei caindo no meio da contracultura. Meu primeiro protesto foi dia 13 de junho, no Rio, quando o gigante acordou. Eu tenho tipo uma lembrança onírica daqueles dias. Estava na linha de frente. Conheci o Black Bloc de Tumblr (site). Estava tipo um caixeiro viajante até chegar a São Paulo. Estão querendo falar que sou líder do movimento. O Black Bloc é uma ação para se descaracterizar. Sempre andei de preto. Mas só estava como black bloc mesmo em Campinas, no 7 de setembro.

Como surgiu o Humberto Baderna?

Em São Paulo conheci uma galera, os badernas. Achei o nome, o Humberto Baderna. Eu mesmo pessoalmente tenho uma frescura com organização. Eu treino, luto muay thai. Baderna era na ideia. Minha foto no Facebook com o pano na cabeça foi em 2010, quando estava pintando a Ferrovia Norte-Sul em Gurupi, Tocantins, em uma quadra abandonada.

Por que a polícia o prendeu?

A gente já tinha saído da manifestação. Foi na Ipiranga com a São João, igual a música do Caetano. Mas foi a minha cara. Eu era o terrorista da imagética. Estava do lado do escudo, tirando foto. A minha arma não era uma pedra, era a câmera. Desde junho, eles estavam buscando um rosto. Vinha um policial ruim e me descia o coro, e vinha um policial bom e dizia: 'a gente quer te descomplicar, a gente quer nome'. Isso aqui não é gangue, é insatisfação popular.

E na prisão, como foi?

Entrei e a primeira coisa que vi era um símbolo do PCC na cela. Aquilo (cadeia) te suspende no espaço e no tempo. Entrei cagando de medo. Eu ali, cabeludo, blusa do Ramones, tenisinho. Estava como um ratinho branquelo sozinho no canto, primário. Os caras já sabiam: 'Ó, o maluco que tombou o carro da polícia'. Os caras tinham respeito. O chão lá é frio. O colchão é sujo. A comida, a humilhação, a perda de esperança. Tanto que chamam aquilo de castigo.

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