Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Após morte de cinegrafista, polícia quer regra para cobertura jornalística

Plano é reunir sindicatos e estabelecer limites; para entidades, esse papel cabe aos próprios jornalistas e às empresas - não à polícia

Bruno Boghossian/RIO, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2011 | 03h04

A Polícia Militar do Rio estuda limitar a participação de jornalistas em suas operações após a morte do cinegrafista Gelson Domingos, da TV Bandeirantes, em tiroteio na Favela de Antares, na zona oeste.

"Vamos tentar reunir sindicatos de cinegrafistas e jornalistas para ter critério. Quando um policial falar 'daqui não podem passar', que eles entendam e, por segurança, obedeçam", afirmou o comandante-geral da PM, coronel Erir Ribeiro da Costa Filho. "Sabemos que a palavra 'limite' tem conotação preocupante para a mídia, mas temos de ter limites, sim", disse o coordenador de Comunicação Social da corporação, coronel Frederico Caldas.

Para entidades que representam a imprensa, o papel de estabelecer limites cabe aos próprios jornalistas e empresas - não à polícia. O diretor do International News Safety Institute (INSI) na América Latina, Marcelo Moreira, afirma que repórteres devem cumprir seu papel, desde que recebam treinamento específico e tenham equipamento adequado. "A imposição de limites deve ser norma do repórter. Nenhuma cobertura vale a vida de um jornalista, mas não é a polícia que vai determinar se a imprensa vai fazer aquele trabalho ou não."

Para o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Fernando Rodrigues, "o jornalista deve ser municiado por informações para ter capacidade de conhecer o grau de risco de determinada situação. Mais importante que discutir a criação de área de exclusão para jornalistas é debater procedimentos para garantir sua integridade física."

Já o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio defende reavaliação da cobertura. "Precisamos repensar como a cobertura é feita. Repórter não pode ficar em igualdade de condições com policial na linha de tiro", avalia a presidente, Suzana Blass.

O antropólogo Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), avalia que o treinamento é fundamental para garantir a segurança, mas concorda com a criação de áreas de isolamento. "É cabível estabelecer um perímetro de segurança. Mas deve ser compartilhado entre mídia e polícia."

Coletes. Segundo a TV Bandeirantes, Gelson usava colete à prova de balas com proteção do nível III-A. Equipamentos do tipo têm revestimento suficiente para proteger de tiros de pistolas e revólveres. Só coletes de níveis III e IV, de uso restrito das Forças Armadas, são capazes de parar disparo de fuzil. "Os coletes que oferecemos são de nível III-A, o máximo permitido para uso civil", diz Frederico Nogueira, vice-presidente do Grupo Bandeirantes.

Portaria de 2006 do Ministério da Defesa estabelece restrições ao uso dos coletes III e IV por civis. Mas a TV Globo conseguiu permissão das Forças Armadas e adquiriu para seus repórteres coletes do nível III, com placas de cerâmica que protegem contra tiro de fuzil.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.