Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Após massacre, funcionários retornam ao colégio Raul Brasil nesta segunda

Jovens, ainda em choque, chegam em grandes grupos ou acompanhados dos pais; nesta primeira etapa não haverá atividade obrigatória para professores e alunos

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2019 | 11h26

Da mesma maneira que deixou os cadernos e canetas em cima da mesa, a mochila pendurada e a bola de basquete embaixo da cadeira na última quarta-feira, 13, antes de sair para o intervalo das aulas, Michael dos Santos, de 17 anos, os encontrou na manhã desta segunda. Cinco dias após o massacre na escola Raul Brasil, em Suzano, os estudantes voltaram para buscar seus pertences.

"Estava tudo do jeito que deixamos antes de sair para o intervalo. Não consegui nem ficar muito tempo na sala, nao queria ver a mochila dos meus amigos que não vão poder vir buscá-las", disse Santos, ele se referia a Douglas Murilo Celestino e Samuel Silva Oliveira, que morreram no ataque.

Mantendo os olhos firmes no portão da escola durante todo o tempo, ele contou que entrar no local o fez acessar todas as memórias daquele dia. "Estava jogando truco com o Murilo e outros amigos. Ele esperava a vez dele e se levantou para conversar com um pessoal, foi quando ouvimos os tiros. Não lembro para onde ele correu, mas eu fugi por esse portão", disse ainda encarando as grades.

A escola reabriu nesta segunda-feira, 18, para uma atividade de acolhimento e atendimento psicológico aos professores e funcionários e para que os alunos pudessem buscar seus pertences. Dezenas de alunos, acompanhados dos pais ou amigos, saíam do colégio com mochilas e bicicletas que foram deixadas para trás no dia em que fugiam dos atiradores. Todos ganharam rosas brancas, com um mensagem de solidariedade e apoio da dirigente regional de ensino. Muitos deixaram as flores em um memorial que foi feito em homenagem às vítimas. 

Thales Fernandes, de 20 anos, foi com um grupo de cinco amigos buscar as bicicletas que ficaram paradas desde o dia do massacre. Os jovens entraram no colégio e saíram menos de dez minutos depois. "Não dá para ficar ali dentro, quis sair o mais rápido que podia. As lembranças daquele dia voltaram muito fortes assim que entrei", contou. Ajudante em uma pizzaria, ele está no 3o ano do Ensino Médio e disse querer terminar logo os estudos para conseguir um salário melhor.

Já seu colega Ryan dos Santos, de 18 anos, diz que, depois de entrar na escola nesta segunda, não quer mais retornar. "Vou parar de estudar por um tempo, não vai ter como. Entrei lá e só queria ir embora. Vou ter medo disso acontecer em outra escola também, então devo parar por um tempo", disse.

Renata Inocêncio, de 16 anos, tinha começado a estudar na escola há menos de dois meses e diz estar com muita dificuldade para entender o que aconteceu. "Eu estava na biblioteca quando começaram os tiros. A professora trancou a porta e nós ficamos rezando até um policial aparecer e nos mandar sair. Eu vi toda aquela cena triste, meus colegas no chão", disse com o olhar fixo no chão. 

A mãe Rosemeire Inocêncio, de 39 anos, contou estar com dificuldade de ajudar a filha a superar o trauma. Ela deu calmantes para que a menina pudesse dormir nos primeiros dias e tem deixado as luzes acesas durante a noite. "Ela está quieta, não quer conversar com ninguém. Não quis nem ver o namorado no fim de semana", disse. Ela disse que vai procurar o Caps para tentar atendimento psicológico para a menina.

Coordenadora da equipe de apoio psicológico à escola Raul Brasil, Marilene Proença, diretora do Instituto de Psicologia da USP, disse que a atuação do grupo neste momento se concentra em atendimentos individuais aos afetados pelo massacre e rodas de conversa. "São duas intervenções diferentes porque cada um lida com o sofrimento de uma maneira muito própria. Estamos disponibilizando a eles as duas opções".

Segundo ela, as rodas de conversa têm tido resultado positivo por se tratar de uma situação coletiva e inesperada, que traz uma necessidade de "pertencimento". "As conversas coletivas ajudam a mostrar que eles não estão sozinhos, que não existe sentimento errado. Eles encontram apoio ao ver que há mais pessoas sentindo o mesmo que eles. Essa sensação de compartilhamento ajuda a encontrar respostas e um lugar para o que estão sentindo", disse.

Em um primeiro momento, a preocupação do grupo que é formado po 12 psicólogos (professores e alunos de pós graduação), foi dar suporte às famílias das vítimas. "Mas precisamos dar atendimento a todos os que viverem isso. É toda uma comunidade que precisa ser olhada e cuidada".

Quatro feridos seguem assistidos por equipes especializadas nos hospitais da Secretaria de Estado da Saúde  -  HCFMUSP e Luzia de Pinho Melo, em Mogi das Cruzes. 

Estados de saúde dos feridos levados a hospitais estaduais:

Adna Isabella Bezerra de Paula, 16 anos, transferida do PSM Suzano para o HC/FMUSP - estável, na enfermaria.

Anderson Carrilho de Brito, 15 anos, transferido do PSM Suzano para o HC/FMUSP -  estável, na UTI.

Jenifer da Silva Cavalcante, 15 anos - HC Luzia de Pinho Melo, saiu da UTI, estável, segue internada. 

Leonardo Martinez Santos, 16 anos - socorrido ao HC Luzia de Pinho Melo - estável; passou por cirurgia, sem intercorrências e segue internado.

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