Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Após incêndio, prefeitura vai investigar outros 70 prédios

Desabamento no Largo do Paiçandu deixa em alerta risco de novos acidentes em outras edificações ocupadas na capital

Bruno Ribeiro, Marco Antônio Carvalho, Paula Félix, Priscila Mengue e Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

01 Maio 2018 | 23h00

Um incêndio na madrugada desta terça-feira levou ao desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paiçandu, centro de São Paulo. Pelo menos uma pessoa continuava desaparecida até 21 horas. O incidente levou a Prefeitura de São Paulo a anunciar vistorias em 70 prédios ocupados na capital para avaliar eventuais riscos estruturais e de incêndio.

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Ao menos 146 famílias – 372 pessoas – viviam irregularmente no imóvel que desabou no Largo do Paiçandu, segundo a Assistência Social da Prefeitura. Os bombeiros informaram que o prédio havia sido vistoriado em 2015, quando foram relatadas as péssimas condições do local às autoridades do Município. O imóvel, uma antiga instalação da Polícia Federal, foi invadido diversas vezes por sem-teto brasileiros e imigrantes.

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Relatos de moradores indicam que o fogo teve início no 5.º andar, por volta de 1h30, quando se ouviu um estrondo e o prédio teria sofrido um abalo. O alerta foi rápido e os ocupantes disseram ter conseguido escapar pelas escadas sem maiores riscos. Um homem identificado apenas como Ricardo teria ajudado sobreviventes e ficado pendurado para o resgate dos bombeiros pela laje de um prédio vizinho. Mas quando os bombeiros preparavam o içamento, houve o colapso do edifício, que ruiu.

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Segundo o engenheiro civil Flávio Figueiredo, será necessário analisar o projeto estrutural do edifício para entender como aconteceu o colapso. "Foi uma sorte muito grande ter caído daquele jeito. Dependendo de onde perdesse a sustentação, poderia ter sido pior: poderia ter enfraquecido de um único lado e ter tombado inclinado", explica o conselheiro do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de São Paulo.

Ele aponta que um dos possíveis motivos para o desabamento foi o fogo ter se alastrado pelos andares inferiores, em vez de ter um foco concentrado. A retirada dos elevadores – que criou dutos de ar no fosso – também pode ter ajudado a criar uma "chaminé". A perícia oficial será possível somente após o fim dos trabalhos de resgate.

Até o início da noite desta terça, havia oficialmente apenas um desaparecido. Outras 44 pessoas previamente cadastradas pela Prefeitura não foram localizadas, mas não se sabia se elas estavam no local. As buscas atravessariam a madrugada, mas com cuidado, pois o processo de resfriamento da estrutura deve se estender por 48 horas.

A Prefeitura ofereceu auxilio aluguel às vítimas — o valor é de R$ 1,2 mil no primeiro mês e de R$ 400 nos próximos 11 meses.

Histórico

O Edifício Wilton Paes de Almeida foi construído em 1961 e tombado em 1992. Abrigou a Polícia Federal em São Paulo e um posto do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), até ser repassado pela Caixa Econômica Federal à União. Um conflito sobre pagamento de taxas, no entanto, levou o caso à Justiça. Ou seja, ele é da União, mas está em nome da Caixa. Em julho de 2014, a União conseguiu fazer a reintegração de posse, mas o imóvel foi novamente invadido cerca de dois meses depois, quando já havia sido cedido à Prefeitura de São Paulo. 

Em 2014, o Município chegou a desistir de um convênio formal, que acabou sendo retomado no ano passado. Neste momento, o prédio se encontrava em negociação para ser transferido oficialmente à Prefeitura. Seria reformado e transformado em repartições públicas, recebendo órgãos que hoje funcionam em imóveis alugados.

A gestão municipal afirmou ter feito, apenas em 2018, seis reuniões para negociar a desocupação da área de forma pacífica. Havia 17 anos que o edifício não era usado oficialmente.

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Segurança

Um laudo enviado pela Prefeitura para o Ministério Público, em 2016, aferia que o local não tinha riscos estruturais, o que acabou sendo determinante para o Ministério Público arquivar uma investigação aberta em 2015 sobre a segurança do local. O inquérito foi reaberto nesta terça. Indagado, o secretário da Segurança Urbana, José Roberto Rodrigues, afirmou que o fogo, por si, poderia alterar condições estruturais.

Pente fino

À tarde, o prefeito Bruno Covas (PSDB) afirmou que existem hoje ao menos 3,3 mil pessoas vivendo nas 70 ocupações que vão passar por um pente-fino. A força-tarefa incluirá as Secretarias de Habitação, Segurança Urbana, Assistência Social e Justiça.

"Em alguns casos, o que temos é falta de documentação, o que não significa que há iminência de risco. A gente quer fazer esse levantamento para ver em quais temos de atuar no curtíssimo prazo para que eventualidades como essa (incêndios) não aconteçam."

Antes e depois do desabamento

 

 

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