Após fogo, lojas se unem para não deixar noivas na mão

Clientes de dez estabelecimentos da Rua São Caetano queimados foram ontem escolher novo vestido

JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2012 | 02h02

A auxiliar de cobrança Michele Carla Estancati, de 31 anos, decidiu como seria seu vestido de noiva em janeiro, assim que a data do casamento foi marcada. Todos os detalhes - do drapeado do busto ao bordado lateral e a cauda voluptuosa - foram pensados meticulosamente. Depois de quatro provas e muitas idas à Rua São Caetano, na manhã de ontem ela finalmente buscaria seu vestido, quando se deparou com a loja fechada, destruída pelo fogo.

Michele não fazia ideia de que dez lojas da famosa rua das noivas haviam se incendiado no sábado. Enquanto seu sonho e de outras noivas queimavam, ela se casava no civil e ficou longe dos noticiários. Ontem, ao se dar conta de que nem ela nem as três damas teriam o que vestir, a quatro dias do casamento, desesperou-se. "Esse vestido foi idealizado aqui", dizia, apontando para a própria cabeça, os olhos vermelhos de choro.

Para tentar minimizar as perdas das noivas, outras lojas da rua, que não foram atingidas pelo incêndio, ofereceram vestidos substitutos sem nenhum custo para as clientes, ou para os comerciantes. "A Rua São Caetano inteira se uniu para evitar que esses sonhos não sejam destruídos. Não se faz um vestido em uma semana, mas nenhuma delas ficará sem usar véu e grinalda", disse a comerciante Vânia Barbosa.

Vendedores de lojas que antes disputavam clientes ontem trabalhavam juntos, buscando nos estoques vestidos que lembravam de alguma forma aqueles que foram queimados.

"Você sabe como é noiva. Se apaixona pelo vestido, como se apaixona pelo noivo", disse Ana Paula Mota, que vendeu o vestido para Michele.

Comerciantes calculam que o prejuízo foi de pelo menos R$ 1 milhão para cada uma das dez lojas incendiadas e o número de noivas prejudicadas pode chegar a 2 mil. "Foi um incêndio de enorme proporção, algo que nunca se viu antes por aqui", afirmou Márcio Casablanca, dono da Casa das Noivas, uma das lojas atingidas. Casablanca disse ter recebido telefonemas com oferta de ajuda de várias pessoas. "Todo mundo ficou comovido. Lojistas, pessoal de revistas de noivas e até a rua das noivas do ABC. A Rua São Caetano interpretou como uma punhalada do destino, mas vamos superar."

A Defesa Civil esteve ontem no prédio, mas o local continua interditado por tempo indeterminado. A perícia ainda investiga as causas do acidente.

Outro lado. Com o casamento marcado para este domingo, a professora Cristina Vilela, de 25 anos, não parecia estar muito abalada. "Vestido de noiva tem vários. O importante é que vou me casar e meu noivo estará lá", dizia empolgada, enquanto experimentava alternativas. Sua irmã Elaine, de 32 anos, contou que ficou mais nervosa que a noiva quando viu imagens do incêndio pela televisão. "Fiquei preocupada com as vendedoras. Acabamos criando vínculos durante esse processo."

Três horas depois de chegar à loja, de provar seis vestidos, de ser aplaudida e elogiada por todos, Michele - a noiva que se casa na sexta - não conseguia escolher um substituto para o vestido que criou. "Mas ela não sai hoje daqui sem um", garantiu a vendedora Ana Paula.

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