Sergio Neves/AE
Sergio Neves/AE

Após estalo, morador acorda e, da cama, vê o céu

Quando a 1ª parede do quarto do gesseiro que morava no Jardim Maringá desabou, ele só teve tempo de pegar os filhos e sair

Rodrigo Burgarelli e Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2010 | 00h00

Por volta das 6 horas de ontem, o gesseiro Erisvaldo Vieira Cerqueira, de 39 anos, acordou com um estalo. Ainda sonolento, abriu os olhos e, deitado na cama, viu o céu. Uma das paredes do quarto havia tombado completamente. Num pulo só, ele levantou, pegou seus três filhos e saiu da casa, que acabaria totalmente destruída no fim da tarde.

Cerqueira diz que construiu sua casa naquele local há cerca de 20 anos, quando tudo ali era só mato. "Nós invadimos naquela época, mas aqui em cima era plano e nunca pensamos que algo poderia acontecer", disse. Segundo o gesseiro, até então, o local era usado para descarte irregular de lixo e animais mortos. Pouco a pouco, outras casas foram sendo construídas, todas de alvenaria.

Hoje, os moradores dizem que ninguém paga Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), apesar de haver ligação da Sabesp e da Eletropaulo e de a Prefeitura já ter feito obras de melhorias nas ruas e praças do entorno.

Desabamento. Os primeiros sinais do deslizamento foram dados anteontem. "Eram umas 8 horas (da noite) quando a gente começou a ouvir uns estalos. De manhã ficou pior, e chamamos a Defesa Civil. Mas ela só chegou na hora do almoço", disse a dona de casa Érica Sayuri Fernandes, de 20 anos. Ela faz parte do grupo de moradores que afirmou que o órgão demorou para agir. Outros, no entanto, elogiaram a decisão de interditar a área antes do acidente.

Segundo o coordenador da Defesa Civil, Jair Paca de Lima, os agentes foram chamados no fim da manhã e, já na primeira inspeção, detectaram forte movimentação de terra. Por isso, decidiu-se pela interdição inicial de 21 imóveis na Rua Fernandes Portalegre. As famílias tiveram tempo de retirar alguns pertences. Por volta das 16h, quando parte da mudança já estava para fora das casas, o terreno começou a ceder e a levar parte das casas. Depois, mesmo com o veto da Defesa Civil, alguns tentavam voltar aos imóveis.

A operadora de telemarketing Aline Ferreira, de 24 anos, chorava na porta da sua casa, que não foi atingida pelo deslizamento e continuava inteira. "Não tenho nem ideia para onde levar meu filho hoje", dizia. Ela, no entanto, concordou com a interdição das casas e reconheceu que o melhor era dormir em outro lugar.

Já o comerciante Anderson Carmo dos Santos, de 30 anos, amargou mais perdas do que apenas o teto para dormir. Ele é dono de um pequeno comércio que foi interditado ao lado de sua casa e não sabe quando vai poder voltar. "Não sei nem como vou alimentar meus filhos. É uma tragédia", lamentou.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Jair Paca de Lima

COORDENADOR DA DEFESA CIVIL

MUNICIPAL

1. O que causou o acidente?

Temos de levar em conta que o terreno é muito inclinado e abriga casas que têm até 25 metros de altura se você contar do pé do morro. São casas pesadas. Outro ponto é que aqui não tem rede coletora de esgoto nem lugar para a água pluvial escorrer.

2. Que medidas a Defesa Civil vai tomar?

Temos de observar a área para saber se há novas movimentações de terra e se mais imóveis precisam ser interditados.

3. O que vai acontecer com essas famílias?

A subprefeitura está cadastrando os desabrigados. A maioria vai para a casa de parentes.

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