TIAGO QUEIROZ/AE
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Após desordem e dor, mortes caem aceleradamente nos anos 2000

Homicídios se tornam estorvo para todos, até para assassinos, e abrem espaço para a intervenção do Estado no crime

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2012 | 10h03

Natalino Pereira dos Santos chegou a São Paulo, vindo da pequena Jardim Alegre, no Paraná, em 1989. Veio para trabalhar em um frigorífico. Separado da mulher, com ajuda das irmãs conseguiu criar os dois filhos, Leandro e Edmar, dando duro em diferentes empregos. No ano passado, seu filho mais novo, Leandro Damião, foi convocado para a seleção brasileira de futebol, aos 22 anos.

A trajetória de Damião no esporte está associada à pacificação não só do Jardim Ângela, na zona sul, como de toda a cidade, onde homicídios despencaram a partir de 2000. Leandro Damião fez primeira comunhão e crisma na Paróquia Santos Mártires, onde o padre Jaime Crowe passou a liderar, em meados dos anos 1990, uma caminhada em defesa da vida. A queda nas taxas de homicídio em mais de 80% permitiu que ele seguisse sua trajetória em paz.

Em 2006, Damião jogou no time de várzea do Família Tupi City, antes de se destacar no Atlético de Ibirama, de Santa Catarina, e chamar a atenção do Internacional, quando em 2010 marcou o gol que deu ao clube o título da Libertadores.

O presidente do Família Tupi City é o motoboy Paulo Enoc. Em outubro de 2001, ele havia sido ameaçado de morte por integrantes da Gangue dos Ninjas, um dos grupos mais perigosos do bairro na época, protagonista de rixas que provocaram mais de 150 assassinatos no Jardim Ângela de 1990.

Para lidar com a situação, Enoc comprou uma arma e foi conversar com Luizinho, um dos líderes da gangue. Chegou a um pagode, assustou-se e atirou, matando Luizinho e outra pessoa. Sumiu por um tempo, foi ajudado pelos patrões e acabou inocentado na Justiça por atirar em legítima defesa.

Enoc montou o Família Tupi City para tentar ajudar as crianças do bairro. Entidades do Jardim Copacabana, como o Cio da Terra, ajudaram a levar Damião ao time de várzea do bairro vizinho, visto como violento. "Montamos a escolinha de futebol, organizamos festas, distribuímos leite e tentamos ajudar as crianças daqui. A pacificação a partir do ano 2000 foi fundamental para isso", diz Enoc.

PCC. A queda acelerada dos assassinatos a partir da virada do século ocorreu com o aumento da venda de drogas e da influência do Primeiro Comando da Capital (PCC) na região. Mas a tensão permanece na cidade, que ainda sofre ameaça de retomada da epidemia. Mesmo que ocorra pela ação de outro tipo de vírus.

 

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