Após denúncias, Uniesp recebe R$ 405 milhões

Uma faculdade do grupo tem 80% dos 30 mil alunos com crédito; instituição diz que cumpre regras de TAC

O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2015 | 02h03

A comprovação de denúncias de que a União das Instituições de Ensino de São Paulo (Uniesp) fraudava de várias formas o Financiamento Estudantil (Fies) não impediram que o grupo fosse a terceira empresa educacional a receber mais dinheiro federal no ano passado. A Uniesp levou R$ 405 milhões por contratos de seus alunos em faculdades ligadas a 15 mantenedoras, todas do grupo.

Uma das mantenedoras, o Instituto Educacional do Estado de São Paulo (IESP), figurava em 2013 como líder absoluta entre as grandes instituições no porcentual de alunos que recebem Fies em relação ao total. Dos seus 30 mil alunos, 80% estudavam pelo financiamento. Isso representa um salto de 23.524% no número de estudantes inscritos no programa desde 2010.

Outra instituição do grupo, a Faculdade de Vargem Grande Paulista, chegou a uma taxa de cobertura do Fies para 95% de seus 1,2 mil alunos - em 2010, nenhum matriculado era beneficiado pelo financiamento. Várias outras faculdades têm taxa de cobertura similar, como a Faculdade Barão de Piratininga e a Faculdade de Bauru.

Denúncias já mostraram que a instituição cobrava preços diferenciados para alunos com financiamento, além de forjar cadastro (o aluno era de Pedagogia, mas o grupo recebia como se fosse de Medicina). A instituição ainda dizia aos alunos que pagaria o empréstimo e oferecia presentes.

A assistente administrativa Ana Paula da Silva Rosa, de 21 anos, matriculou-se em Marketing na Uniesp em 2012 após ver anúncios de que teria o curso pago. "Depois fomos forçados a fazer o Fies. Como precisava me formar, fiquei." Todos os 25 alunos da sua sala tinham Fies.

O curso durou dois anos e sua dívida é de R$ 27 mil - equivalente a mensalidade de R$ 1,1 mil, média de preços, por exemplo, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp). "Já decidi que não vou pagar a dívida", diz ela, que trabalha em uma empresa de eventos, a mesma de quando entrou no ensino superior. Ana Paula corre o risco de sofrer execução judicial.

Por contratos, a Uniesp chegou a assinar convênios com igrejas, comprometendo-se a pagar um dízimo a quem indicasse clientes. Também criou uma personagem fictícia, a Silvia Fies, para fazer publicidade.

Punição. Em 2011, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa de São Paulo apurou denúncias que incluem irregularidades trabalhistas. O MEC chegou a suspender, em 2013, a abertura de cursos e, em abril do ano passado, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público Federal (MPF) exigiu que o grupo corrigisse os contratos e concedesse desconto de 30% nas mensalidades do primeiro semestre para todos os matriculados.

A Uniesp informou que está "cumprindo todas as determinações" do TAC. Defendeu que o financiamento é uma poderosa "ferramenta de desenvolvimento da educação". O MEC não informou se outras instituições foram punidas. / J.R.T., P.S. e R.B.

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