Após anos poluído, Rio Paraíba do Sul começa a renascer

Índice de oxigenação da água cresce mais de dez vezes em dois anos e os peixes, antes impróprios para consumo, voltam à mesa

Gerson Monteiro, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2011 | 00h00

Por quase duas décadas, a poluição do Rio Paraíba do Sul e de seus afluentes alterou a vida de quem vem vive às suas margens. Agora, um projeto que prevê tratamento de 100% do esgoto in natura lançado no rio já apresenta os primeiros resultados. Peixes que tinham virado raridade, como pacus, tambaquis e piabas, voltaram a aparecer nas redes de pescadores da região. E, há cinco anos considerados impróprios para consumo por causa da poluição, lambaris, curimbatás, mandis e tilápias também já podem ir à mesa.

Análise da Cetesb, a agência ambiental do Estado, comprova que o índice de oxigenação da água do Paraíba do Sul, no trecho de São José dos Campos, a 80 quilômetros de São Paulo, subiu de 0,5 miligramas por litro, em 2009, para 5,2 mg/l, em 2011 - peixes sobrevivem a partir de 5 mg/l.

O pico de oxigenação ocorre em Pindamonhangaba, a 158 km da capital: passou de 2,5 mg/l, em 2009, para 6 mg/l neste ano. Com 1.137 quilômetros de extensão, o rio abastece 14 milhões de pessoas e passa por 180 cidades, de Minas, São Paulo e Rio.

"Não dava para comer o peixe daqui, tinha gosto de óleo", afirma o pescador Antonio Cardoso, de 72 anos. Morador de Tremembé, a 155 quilômetros da capital, ele vive à beira do Paraíba do Sul desde criança e criou os oito filhos com a renda da pesca. "Pesco no Paraíba faz 62 anos. É uma alegria poder pegar peixe de novo", conta. "Cinco anos atrás, não conseguia parar à beira do rio de tanto mau cheiro. Para almoçar, era preciso fechar a casa", diz Cardoso, apontando para a água agora limpa que passa nos fundos de seu quintal.

O pescador diz que hoje, no verão, consegue pescar até 20 quilos de peixe por dia. "Já tenho meus fregueses. Limpo, coloco no freezer e ligo para eles virem buscar", conta. Toda a produção é vendida no atacado para comerciantes do mercado municipal da cidade vizinha de Taubaté.

Lazer. A ponte desativada em Tremembé é ponto de encontro dos que fazem da pescaria um lazer. José Giolmi de Oliveira, de 54 anos, é um deles. Mesmo em dias frios, não abandona o molinete e passa horas jogando o anzol e observando a leve correnteza. "Hoje dá pra gente brincar de pescar, tem mais peixes. Antes, tinha pouco e o cheiro (do rio) era tão forte que a gente não aguentava ficar aqui."

De acordo com José Londaldo, presidente da Colônia de Pescadores Profissionais, a entidade, que já chegou a ter 1,4 mil pescadores registrados, hoje tem apenas 490 profissionais, de 36 cidades do Vale do Paraíba e litoral norte. "Muitos peixes entraram em extinção e vários de nossos pescadores abandonaram o Paraíba por conta da poluição."

Parceria.[ ] [/ ]A despoluição do Paraíba do Sul está sendo realizada por meio de parceria entre a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o governo estadual e municípios. Com a implantação da Estação de Tratamento de Taubaté/Tremembé, em março de 2010, o esgoto nessas duas cidades passou a ser 100% tratado.

De acordo com a Sabesp, foram investidos R$ 170 milhões no Vale do Paraíba, região em que 21 municípios usam abastecimento operado pela companhia e dez adotam sistemas autônomos. A previsão é de que em 2014 o sistema de despoluição atinja sua universalização, com 100% de água tratada e 100% de esgoto coletado e tratado, absorvendo recursos de R$ 500 milhões.

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