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Após 90 anos, museu resgata saga da estrada pan-americana em Bariri

Passados 90 anos do início da epopeia, a história de uma das maiores aventuras automobilísticas do mundo será exposta num memorial, em Bariri, interior de São Paulo

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2018 | 03h00

SOROCABA – Em 16 de abril de 1928, três expedicionários brasileiros partiram do Rio de Janeiro a bordo de dois incipientes Fords T, para percorrer 27.631 quilômetros de estradas, picadas, rios e matas e chegar a Nova York, nos Estados Unidos, dez anos depois. Na chegada, o trio foi recebido pelo então presidente Franklin Delano Roosevelt, na Casa Branca, e reuniu-se com o renomado industrial Henry Ford, em Detroit. 

+ Especial: Carretera panamericana - A aventura desconhecida de três brasileiros pelas américas

Os brasileiros Leônidas Borges de Oliveira, Francisco Lopes da Cruz e Mário Fava chegaram a usar pás e picaretas, além de mão de obra de militares e indígenas, para o abrir caminho que ficou conhecido como Estrada Pan-Americana, ou Carretera Panamericana, em espanhol, ligando as três Américas.

Passados 90 anos do início da epopeia, a história de uma das maiores aventuras automobilísticas do mundo será exposta num memorial, em Bariri, interior de São Paulo, onde residia Fava, o mecânico da expedição. Um grupo de amigos – Aziz Chidid Neto, Ari Francisco Fidi, José Augusto Barboza Cava, Osni Ferrari e Ângelo Falseti – decidiu fundar o Museu Mário Fava, onde serão reunidos documentos, fotografias, mapas, diários, objetos, ferramentas e outros lembranças da grande viagem.

Entre as imagens, estão fotos dos exploradores com o presidente norte-americano, com o legendário Ford e de um passeio de dirigível que o grupo fez nos Estados Unidos. Também será exposta cópia da autorização para dirigir que Fava recebeu, em Cleveland, de ninguém menos que Eliot Ness, o implacável perseguidor do chefão mafioso Al Capone. O grupo conseguiu também fotos do retorno dos exploradores ao Brasil, em 25 de maio de 1938, quando foram recebidos pelo presidente Getúlio Vargas, no Palácio do Catete, no Rio. 

Recortes de jornais de vários países, relatando a aventura, e exemplares de livros, como “O Brasil Através das Três Américas”, do escritor Roberto Faraco Braga, de Bauru, e “Eu não sabia que era tão longe”, de Osni Ferrari, de Bariri, que narram a viagem, também poderão ser consultados. Será exposta ainda uma estátua de Fava em tamanho natural.

O acervo será abrigado num prédio da região central que foi sede da Sociedade Italiana de Beneficência e pertence à Irmandade da Santa Casa. O imóvel, inscrito no patrimônio histórico municipal, teve projeto de restauro realizado pelo arquiteto Luis Carlos Viccari Filho. O casarão, que havia sido modificado por reformas, recuperou suas linhas originais.

Uma das principais atrações será o Ford T ano 1918/19, um dos veículos usados na viagem dos três aventureiros por 15 países das três Américas. De acordo com o historiador José Augusto Barboza Cava, de Bariri, anos mais tarde, os dois carros foram deixados no Museu do Ipiranga, na capital.                

Batizado de 'Brasil', o Ford T ficou em exposição em local coberto e está bem preservado. Já a caminhonete, também da linha T da Ford, de 1925, ficou em terreno aberto, algumas peças foram saqueadas, outras roubadas e o veículo acabou desaparecendo. Consta que Henry Ford tentou comprar os dois veículos, oferecendo um valor impensável, mas Leônidas se negou a vender, pois sentia-se no dever de os levar de volta ao Brasil.

O museu será inaugurado no dia 21 de julho, com a presença de familiares dos três aventureiros. No evento, será lançado o livro “Museu Mário Fava – Histórias de Bariri”, escrito por Cava. “É uma história extraordinária, de um feito importante de três brasileiros que ficou praticamente esquecido durante décadas. O museu vem preencher essa lacuna”, disse o historiador.

Natural de Descalvado, interior paulista, Leônidas era tenente do Exército e chefiou a expedição. Ele faleceu em 1965, na Bolívia, mas seu corpo está sepultado no Cemitério da Consolação, em São Paulo. Cruz era catarinense de Florianópolis e foi o navegador do grupo. Ele morreu em 1966 em Mogi das Cruzes. Mário Fava só veio a morrer em 2000, durante viagem ao Rio de Janeiro, aos 92 anos. O corpo está enterrado em Paranavaí, no norte do Paraná, onde anos mais tarde, ele montou uma empresa de recauchutagem de pneus.

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