Após 86 anos, ''avô dos arranha-céus'' é aberto ao público

Visitantes poderão conhecer Edifício Sampaio Moreira, no centro da capital, e acompanhar criação de artistas que têm ateliê no local

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2010 | 00h00

Até dezembro, o Edifício Sampaio Moreira, no centro de São Paulo, conhecido como "avô dos arranha-céus" da capital, com 13 andares, vai transformar-se em um grande ateliê de arte aberto ao público. Há um mês, seis artistas usam as antigas salas comerciais como estúdio, em um processo que pode ser acompanhado gratuitamente - e representa oportunidade única no edifício, aberto para visitação pela primeira vez em 86 anos.

"Não é um lugar neutro. O ambiente, com a história que carrega, influencia no desenvolvimento das obras, que dialogam com o prédio", disse a crítica de arte Luisa Duarte, curadora do Red Bull House of Art, evento responsável pela abertura do edifício ao público. As visitas podem ser realizadas de quarta-feira a sábado, das 10 às 20 horas.

Construído em 1924, o Sampaio Moreira sempre teve uso comercial: prédio de escritórios até 2008, foi desapropriado pela Prefeitura para instalação da Secretaria Municipal de Cultura no local (prevista para 2012).

Arte e história. Aos visitantes, a dica é que aproveitem duas facetas do passeio: além de acompanhar a criação artística nos ateliês, a arquitetura do prédio, em estilo eclético, deve ser observada. Logo na entrada, chamam a atenção as escadarias de mármore de Carrara, o painel de madeira maciça, os elevadores manuais, revestidos de vermelho.

E é logo no elevador que aparece a primeira intervenção: uma câmera mostra o poço do edifício, em movimentação constante, à medida que a cabine sobe e desce. "Observar a câmera enquanto desce dá a sensação de estar subindo, e vice-versa. Causa vertigem, que me faz lembrar o centro da cidade", disse o artista plástico Henrique César, de 23 anos, "residente" no prédio. "Procuro mostrar o lado escondido, o que há por trás das portas fechadas, das salas sem luz."

Dois andares do edifício, o 10.º e o 11.º, foram ocupados. Em salas de 15 metros quadrados - com vista para o Vale do Anhangabaú, o antigo prédio da Cia. Light e o Teatro Municipal - foram instalados os ateliês. "A vista influencia e pressiona. Pensar que o Teatro recebeu, por exemplo, a Semana da Arte Moderna de 1922 acrescenta uma dose de pressão no processo criativo", disse o artista Adriano Costa.

No 10.º andar há, ainda, uma "galeria transitória", onde são instaladas obras enquanto ainda são feitas. Em 25 de outubro, a versão final dos trabalhos será apresentada oficialmente, na garagem do Sampaio Moreira.

A cobertura do prédio é também passagem obrigatória, com vista para o Edifício Martinelli - que o desbancou como "primeiro arranha-céu" da cidade, construído em 1934 com 30 andares. "Aqui vou montar minha casinha", conta a fotógrafa Flávia Junqueira, que instalará no terraço uma casa de bonecas de 2 metros de altura, totalmente colorida. "Vai contrastar com o cinza dos prédios, que não deixam de ser casas também."

O prédio ficará aberto para visitação até 31 de dezembro. Até lá, serão apresentadas palestras sobre artes, também gratuitas.

PRESTE ATENÇÃO

1.Terraço. A cobertura, com pergolado de colunas gregas, traz bela vista do Vale do Anhangabaú, da Catedral da Sé, dos Edifícios Banespa e Martinelli. Repare também nos três motores suecos que movimentam os elevadores desde a década de 1920.

2. Fora do roteiro. Vale chamar um monitor para acompanhá-lo num tour por andares do prédio não ocupados com ateliês. Fotografias jogadas no chão, antigos papéis de parede e instalações "secretas" dos residentes podem ser encontrados.

3. Ateliês. Paredes rabiscadas, instalações inacabadas, projetos escritos na parede: boa chance para (tentar) entender como criar obras de arte.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.