Raimundo Rosa/Prefeitura de Santos
Raimundo Rosa/Prefeitura de Santos

Após 76 anos, descendentes de japoneses recebem as chaves de casarão de volta

Governo federal devolveu casarão japonês confiscado durante Segunda Guerra Mundial

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2018 | 03h00

SOROCABA – Depois de 76 anos, descendentes de imigrantes japoneses receberam de volta, nesta segunda-feira, 18, um casarão confiscado pelo governo brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial, em Santos, litoral de São Paulo. Ali funcionava a Escola Japonesa de Santos, que foi fechada e teve o imóvel expropriado pelo governo de Getúlio Vargas, como retaliação pela entrada dos japoneses na guerra. O decreto, assinado em 11 de março de 1942, determinava o confisco dos bens das comunidades japonesa, alemã e italiana, consideradas inimigas, após o ingresso do Brasil no conflito ao lado dos aliados.

A devolução, feita pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU), é consequência de projeto de lei sancionado em dezembro de 2016 pelo presidente da República. A solenidade, no próprio casarão, foi acompanhada por anciões que, à época, nada puderam fazer ao se verem despojados daquela que consideravam sua “casa” no Brasil. O ato, cercado de emoção, foi acompanhado também por jovens que fazem parte da quarta geração de descendentes dos primeiros imigrantes nipônicos.

+++ Livro resgata a saga dos imigrantes japoneses e seus descendentes a partir de 1941

Durante mais de sete décadas, a comunidade japonesa de Santos foi privada do uso pleno do imóvel em razão de um ato de guerra. “Na época, a escola ensinava português de manhã e japonês à tarde, mas atendia também brasileiros, como acontece até hoje. Temos 120 alunos e apenas 30% são descendentes”, contou a diretora de Cultura da Associação Japonesa, Naoyo Yamanaka. Ela lembra que o sobrado, construído com ajuda financeira do governo japonês, na Vila Mathias, foi inaugurado em 1929.

Santos tinha a colônia japonesa mais numerosa do Estado. Conforme Naoyo, muitos imigrantes que chegaram a bordo do navio Kasato Maru, em 1908, se fixaram na cidade praiana. Com a criação da escola, o governo japonês enviou professores para ensinar a língua e a cultura. Em 1946, logo após a guerra, o presidente Eurico Gaspar Dutra incorporou os imóveis confiscados ao patrimônio nacional. O prédio da Escola Japonesa foi parar nas mãos do Exército e abrigou a Junta de Alistamento Militar até 2006, quando a União permitiu o uso do imóvel pela Associação Japonesa.

No centenário da imigração japonesa, em 2008, o sobrado foi restaurado para receber o príncipe Naruhito, do Japão. Naoyo conta que, além da escola, o casarão abriga atividades ligadas à cultura japonesa, como cursos de shodo - a caligrafia típica -, ikebana e origami. “Neste sábado, vai acontecer a formatura dos alunos do nosso curso de oratória. Tem aluno brasileiro que parece japonês quando fala”, disse. Agora que o prédio voltou para a comunidade, o plano é intensificar as atividades e iniciar a instalação de um museu. “Vamos restaurar o antigo alojamento dos professores, que fica nos fundos do prédio”, revela.

Conforme a STU, o casarão japonês de Santos é o último imóvel confiscado durante a guerra em São Paulo a ser devolvido aos verdadeiros donos. Os bens da comunidade italiana, mais antiga e incorporada à sociedade brasileira, começaram a ser devolvidos ainda durante a guerra. Em seguida, houve a devolução de bens confiscados de alemães.

As barreiras da língua e da cultura são apontadas como causas do atraso no processo de devolução dos bens tomados dos japoneses. O processo só foi iniciado em 1994, quando o então deputado federal Koyu Iha apresentou projeto para reverter o confisco do casarão.

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