Após 6 dias, campeão de boxe volta para casa

Integrante da seleção, ele estava deprimido na casa do amigo e passará por tratamento

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2012 | 03h01

Eram 4h do dia 10, na sexta-feira em que o boxeador Esquiva Falcão, de 22 anos, lutaria a semifinal dos pesos médios (até 75 kg) na Olimpíada de Londres. Enquanto o País curtia a expectativa de testemunhar a primeira final no esporte, seu colega de academia e de seleção brasileira, David Lourenço Costa, de 20 anos, pegava seu Fiesta vermelho em cacos.

Em vez de seguir para o Centro de Treinamento da Seleção Brasileira de Boxe, em Santo Amaro, na zona sul, como fazia diariamente, acabou mergulhando em um buraco profundo, de onde sairia só seis dias depois. Deprimido, nesse período ele se recolheu à casa de um amigo e não deu sinais de vida, sem telefonar para ninguém, levando seus parentes ao desespero. Só avisou onde estava na quarta-feira à noite, depois da enorme repercussão de seu sumiço.

Lutador prodígio, integrante da seleção brasileira de boxe, campeão mundial juvenil e medalha de ouro na Olimpíada da Juventude em 2010, David sempre treinou com Esquiva, que acabou conquistando a vaga olímpica de peso médio ao ganhar a medalha de bronze no Mundial deste ano. David, eliminado nas quartas de final no Pan-Americano do ano passado, acabou sendo preterido.

"Acho que isso mexeu com a cabeça dele. Ainda não sentamos para conversar. Mas a pressão sempre foi muito grande e acho que o fato de ele não ter ido para Londres, junto com a delegação, acabou deixando ele muito triste", diz o pai, treinador de boxe amador, Ailton Cardoso, de 42 anos.

Ontem, David ainda parecia aéreo, triste e surpreso com a repercussão de sua fossa. Ele pediu desculpas pela confusão que provocou. Na quarta-feira, depois de anunciar o desaparecimento do filho, seu pai recebeu mais de 500 ligações no celular. Ontem, no começo da tarde, os telefonemas perdidos já chegavam a 200. "Eu estava deprimido. Vou precisar do apoio de todos e do meu esforço para chegar bem ao Rio (na Olimpíada de 2016)", disse David, evitando se estender nas explicações.

Ele falou pouco, dando respostas monossilábicas, antes de se retirar para descansar. Enquanto isso, o pai tentava entender e explicar o que se passava na cabeça do filho. Conversando com treinadores e autoridades policiais, concluiu que o primeiro passo a dar era conseguir um psicólogo para o filho.

Treinos. Primogênito em uma família de sete crianças, David começou a ser treinado pelo pai aos 4 anos. Sem dinheiro, ele precisava socar câmeras de pneu de caminhão sob o sol forte porque a academia não tinha teto. Nessas condições, aos 12, passou a competir no circuito amador. Foi duas vezes campeão infantil nos torneios da Federação Paulista de Boxe, evoluindo até chegar aos títulos mundiais. "Ele é especial e tem todos os atributos para estar no Rio em 2016", diz o presidente da Federação, Newton Campos.

Para seguir crescendo no esporte, David vive uma rotina sacrificada e estressante. Acorda às 4h. Em seu carro, atravessa a cidade, saindo de Guarulhos para chegar a Santo Amaro e treinar pesado por seis horas. Volta para Guarulhos só às 18h, quando se arruma para ir à escola, de onde sai às 23h. Está acabando o 3.º ano do ensino médio e pretende cursar faculdade.

Em casa, os outros cinco irmãos também lutam boxe, inclusive a irmã, Débora, de 18 anos. Igor, de 14, campeão brasileiro, é considerado uma promessa. Denílson, também de 14, foi adotado neste ano. Ele morava na rua e treinava na academia de David em Santo Amaro. Como era bagunceiro, acabou sendo expulso pelos professores. Não tinha mais para onde ir e foi adotado pela família. Atualmente, ele também treina na academia Olhos de Águia, do pai de David, com mais 20 alunos.

Envolvido nessa rotina intensa e desgastante, respirando boxe todos os segundos de sua vida, é que David sentiu a estrutura de seu mundo desmoronar durante a Olimpíada. Como se a luta de Esquiva revelasse um suposto fracasso em sua trajetória pessoal. Lembrou das raras vezes em que ficou na rua depois da meia-noite, enquanto os amigos iam para a balada. Será que valeu à pena abrir mão de tudo para no fim não alcançar a meta traçada? "Torcemos muito pelo Esquiva e ficamos felizes com a força que ele deu para o boxe no Brasil. Mas talvez o David quisesse ter viajado com eles, mesmo que fosse só para acompanhar", arrisca o pai, tentando compreender os tantos sentimentos indecifráveis.

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