'Após 5 minutos no escuro, foi dando agonia nas pessoas'

Pelo menos 300 passageiros ficaram presos nos vagões; grávidas e idosos passaram mal e foram carregados por quase 2 km de túneis

Diego Zanchetta, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2010 | 00h00

O pânico foi ainda maior entre os cerca de 300 passageiros dos dois trens parados no túnel entre as Estações Pedro II e Sé. Em meio ao calor insuportável e à escuridão, passageiros decidiram arrebentar as portas e travas de segurança e saíram andando pelos trilhos da Linha Vermelha. Grávidas e idosos passaram mal e foram carregados por agentes do Metrô por quase dois quilômetros, de dentro do túnel até ambulâncias que aguardavam no meio da Praça da Sé.

Quarenta minutos após a pane, por volta das 8h30, o caos no trânsito e nas linhas de ônibus se espalhou do centro até a Vila Matilde, na zona leste. Quem descia a pé dos vagões parados entre o Brás e o Tatuapé, na parte elevada da linha, também seguia pelos trilhos ou pelo canteiro ao lado da Avenida do Estado. Encontrar uma lotação ou táxi vazio era missão impossível. Não havia lugar nem nos pontos.

No fim da linha, na Estação Barra Funda, quem esperava o metrô para chegar ao centro lotou as paradas de coletivos ao longo da Avenida Francisco Matarazzo e do Elevado Costa e Silva. O trânsito em toda a região central ficou travado da Avenida São João até o Brás. A falta de informação também agravou o desespero de quem estava dentro das composições paradas. "Depois de cinco minutos no escuro, foi dando agonia nas pessoas, principalmente nos mais velhos. Ninguém sabia o que estava acontecendo, falaram para nós que alguém tinha se suicidado. Aí uns homens começaram a quebrar as travas de segurança, as portas. Saímos andando pelo trilho, meio sem saber por onde sair", relatou a assistente administrativa Veridiana Galindo, de 24 anos, moradora de Artur Alvim, que ficou 20 minutos parada no túnel.

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"Fiquei quatro horas entre minha casa e o trabalho"

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"Amanhã é o dia mundial sem carro. Hoje foi o dia municipal sem Metrô"

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"Tô preso no metrô de novo. Agora na Linha 3. Parabéns aos envolvidos"

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"Caos total no Metrô hoje, tem de quebrar vidros para andar até a plataforma"

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"Depois de 20 minutos lá dentro, com a janela embaçada, eu parei para rezar"

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"Nunca pensei que ia passar por isso, saí pela janela"

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Sufoco

USUÁRIOS SOCAVAM AS PORTAS

A analista de operações financeira Vanessa Bianchi, de 33 anos, estava em um vagão entre as Estações Pedro II e Sé. Ela embarcou às 7h30 na Estação Tatuapé e só às 9h30 desembarcou na Sé, depois de passar mal com tanta confusão. "Você começa a ficar sem ar, mesmo se é uma pessoa tranquila", diz ela.

O vagão em que estava Vanessa parou às 8 horas. Sem janelas, em dez minutos todas as vidraças já ficaram embaçadas. O calor foi crescendo e, segundo a analista, algumas pessoas desmaiaram. Não demorou para que alguns se desesperassem dentro do vagão parado e sem ventilação. "Os próprios usuários começaram a socar as portas e janelas, acabaram forçando uma porta e abriram todos os vagões." A composição em que estava Vanessa parou à beira do túnel que dá acesso à Estação Sé. Depois que as portas foram abertas é que surgiu um funcionário do Metrô. / PAULO SALDANA

Revolta

BRESSER E CARRÃO: PÉ DE GUERRA

O clima "era de guerra" na Estação Carrão, segundo os usuários. Com a informação de que a estação seria esvaziada, muita gente se descontrolou. "Começou uma gritaria, começaram a esmurrar os vagões e lixeiras, uma confusão enorme", disse a analista financeira Amanda Teixeira, de 28 anos, que mora no bairro e trabalha no centro. Além dos avisos sonoros da estação, dois funcionários do Metrô passavam pela plataforma com megafones. Na Bresser-Mooca, a confusão ocorreu porque os usuários exigiram o bilhete de volta. Uma aglomeração foi formada na sala de supervisão operacional (SSO), ao lado das catracas, enquanto funcionários tentavam esvaziar a estação. "Foi uma grande gritaria, gente batendo no vidro", disse uma das usuárias. Um policial militar e dois guardas civis metropolitanos tiveram de ficar postados na plataforma, mas o clima foi tranquilizado rapidamente.

"Vergonha"

SEM DORMIR E SEM HORA PARA VOLTAR

A comerciante Eloíse Saldan, de 31 anos, já estava na plataforma do Metrô Bresser quando, por volta de 8h15, avisaram pelo alto falante de que seria necessário esvaziar a estação. "Não estamos nem sabendo o que aconteceu direito nem o que fazer", diz ela, que trabalha na feirinha da madrugada, na região do Brás, e estava ainda sem dormir.

Eloíse seguiria para Osasco, na Região Metropolitana, onde mora com familiares. Por volta de 10h40, ainda permanecia debruçada na grade da estação, à espera da volta das atividades. "Não é possível demorar tanto para resolver um problema, isso é uma vergonha."

A também comerciante Helenice da Cruz, de 50 anos - que acompanhava a sobrinha Eloíse -, estava desacreditada sobre o horário que conseguiriam embarcar. "Trabalhar a noite toda e não conseguir chegar em casa é terrível", disse ela, com lágrimas nos olhos. /P.S.

Corrida

NO 1º DIA DE TRABALHO, 3,5 KM A PÉ

Thaís Cristina, de 23 anos, enfrentou uma corrida a pé da Estação Brás ao Belém - cerca de 3,5 km - para tentar chegar ao primeiro dia de trabalho em uma empresa de telemarketing. Suada e já cansada antes das 11 horas, sequer sabia como chegar, mas ia errática pelas ruas na manhã de ontem. "O Metrô ficou parado na Sé durante por um tempão. Depois foi andando bem devagar até o Brás, quando, enfim, avisaram que não iria mais funcionar", diz ela, que mora na Vila Mariana. "Nem tenho dinheiro, só estou com bilhete do metrô. Esperei um tempo, mas depois vi que era melhor sair correndo", completa. Outros que, como ela, só tinham bilhete único, esperaram a volta do sistema. O compromisso era às 9 horas e, por volta de 10h30, Thaís ainda estava nas proximidades da Estação Bresser-Mooca. "Precisava pelo menos avisar meu chefe", diz ela, que só chegou ao trabalho às 11 horas. / P.S.

Sem saída

UNS QUERIAM ENTRAR E OUTROS, SAIR

Quando a analista de produtos Flávia Armani, de 24 anos, chegou na Estação Bresser-Mooca do Metrô, o acesso já estava fechado. Eram 8h30 e uma multidão se aglomerava na boca das catracas. "Tinha gente tentando entrar, outros sair. Uma confusão", diz ela, que tentava chegar ao trabalho na Barra Funda, zona oeste. Foram mais de duas horas de espera, esperando a reabertura ou mesmo uma explicação. "Não sei nem como conseguiria chegar lá sem o metrô." A dúvida era a mesma da estudante de Psicologia Daniela Paulovic, de 19 anos. Ela perdeu o horário de um trabalho em uma escola em Santana, na zona norte - mesma região onde mora. "Se eu soubesse dessa loucura, nem tinha vindo para a faculdade", diz ela, que chegou ao Bresser por volta de 7h30, com tranquilidade. Quando tentou voltar, depois das 10h, tudo estava parado. "Não sei como chegar de ônibus." / P.S.

Paciência

FOI MELHOR SENTAR E ESPERAR

Sentada no chão e com a filha de 6 anos deitada em seu colo, a secretária Ana Paula Fernandes, de 25 anos, aguardava na manhã de ontem na Sé a volta na circulação dos trens para seguir para sua casa. As duas haviam ido passar uns dias fora de São Paulo e voltaram bem cedo para a cidade, para ter tempo de passar em casa, se arrumarem e depois seguirem para o trabalho e para a escola, respectivamente. "Até poderia tentar ir de ônibus, mas só imagina o caos que não deve estar lá fora também. É melhorar sentar e esperar", disse Ana Paula, que já esperava por uma hora - isso por volta de 10 horas. Já o aposentado Paulo Yoshida, de 65 anos, preferiu aguardar no último degrau da escada que levava para a plataforma, para evitar o tumulto dos demais locais. Ele havia saído de casa no Bresser às 5h30 para ir para a fisioterapia. "Madrugo para fugir da multidão, mas hoje não consegui evitar." / RENATO MACHADO

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