Após 39 anos de briga, Canecão fecha as portas

Dona do terreno, UFRJ conseguiu reintegração depois de quase quatro décadas de disputas judiciais; área será usada para atividades acadêmicas

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2010 | 00h00

RIO

Palco de shows memoráveis desde o fim dos anos 60, o Canecão foi lacrado anteontem por um oficial de Justiça em operação que teve o apoio da Polícia Federal. Depois de 39 anos de disputa judicial com os donos da casa de shows, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conseguiu a reintegração de posse do terreno de 36 mil m² ocupado pelo Canecão.

De acordo com a Assessoria de Imprensa da Justiça Federal, a decisão do juiz Fábio Cesar dos Santos Oliveira ? da 3.ª Vara Federal do Rio, em cumprimento a acórdão do Supremo Tribunal Federal (STF) ? é "definitiva". Portanto, não haveria mais possibilidade de recurso. No entanto, o advogado do Canecão, Pedro Avvad, disse que vai recorrer.

"Estamos preparando um recurso para apontar o que consideramos falhas processuais. Espero fazer uma surpresa gostosa para o pessoal da UFRJ, que agiu com muita agressividade e violência", afirmou Avvad. Segundo o advogado, não houve resistência ao cumprimento da decisão. Por isso ele criticou a presença de policiais. "A universidade, que sofreu repressão na ditadura, hoje está usando os mesmos meios", disse Avvad. De acordo com a UFRJ, foi necessário recorrer à PF porque o Canecão se negava a cumprir a decisão.

Para o reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira, "não há possibilidade de acordo" com a casa de shows. "Fomos esbulhados durante esse tempo todo em que uma empresa de negócios se estabeleceu em terreno público, auferiu lucros e a universidade não teve nenhum benefício", afirmou.

Imbróglio. A briga da UFRJ com o Canecão é antiga e teve vários capítulos. Em 1950, o terreno de 116 mil m² onde hoje funciona o câmpus da Praia Vermelha, na zona sul, foi cedido para a universidade, mas o pedaço que depois seria alugado para a casa de shows e um bingo ficou com a Associação dos Servidores Civis do Brasil, já extinta.

Em 1967, toda a área, inclusive a parte da associação, foi doada por meio de decreto para a UFRJ. No entanto, o Canecão ? inaugurado em junho daquele ano como cervejaria ? se recusou a sair. A disputa na Justiça começou em 1971.

Ontem, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) ficou do lado do Canecão. "Acho uma pena. É uma casa tradicional. O problema é ter dinheiro para fazer as coisas. Gosto muito do Aloísio, mas ele vai ter recursos? Então que se faça uma licitação. Quem sabe os donos do Canecão não participam?", sugeriu Paes. "O decreto que doou esse terreno para a universidade nos obriga a desenvolver atividades acadêmicas nele. Se fizéssemos uma licitação para que aqui se instalasse uma casa de shows, estaríamos violando o decreto e sujeitos a perder a doação", respondeu o reitor. Em 1999, o Canecão foi tombado como patrimônio cultural por meio de projeto de lei do então deputado e hoje governador Sérgio Cabral (PMDB). "Derrubamos o tombamento na Justiça", disse o reitor.

Aloísio estimou prazo de 20 dias para que o Canecão retire seus equipamentos. O show do cantor George Israel, ontem, foi cancelado, assim como a apresentação de Edu Lobo, sábado e domingo. O reitor quer discutir com a classe artística o destino do novo centro cultural que pretende instalar ali, com recursos do governo federal. A ideia é manter os shows e cobrar menos pelo ingresso. Uma das propostas para cumprir a exigência de realizar atividades acadêmicas no local é instalar um Instituto de Ciências do Carnaval.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.