Após 27 anos, Cabo Bruno ganha indulto

Acusado de ser um dos principais justiceiros de SP nos 1980, ex-PM foi condenado a 117 anos de prisão e se tornou pastor na cadeia

BRUNO PAES MANSO, GERSON MONTEIRO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2012 | 03h04

Beneficiado pelo indulto de Natal assinado pela presidente Dilma Rousseff em dezembro, Florisvaldo de Oliveira, o Cabo Bruno, de 53 anos, ganhou direito à liberdade após 27 anos atrás das grades. Acusado de ser um dos principais justiceiros de São Paulo nos 1980, o ex-policial militar condenado a 117 anos de prisão recebia dinheiro de comerciantes para matar na zona sul da cidade. Na tarde de quarta-feira, a Justiça de Taubaté mandou soltá-lo. Às 15 horas de ontem, ele saiu escondido em um carro.

O indulto da presidente, tradição brasileira desde a época do Império, concedeu o perdão aos presos que cumpriram 20 anos ininterruptos da pena e nos últimos 12 meses não cometeram faltas graves.

Na semana passada, o promotor responsável pelo caso, Paulo José de Palma, emitiu parecer favorável à liberdade de Oliveira, confirmada agora pela Justiça. Em 2009, a defesa do ex-PM havia pedido a progressão de pena, que mudou o regime de fechado para semiaberto. No último Dia dos Pais, ele saiu pela primeira vez da Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, em Tremembé, conhecida como P2. E chegou em casa sem avisar a família. Antes, caminhou 30 quilômetros durante mais de duas horas e comprou um buquês de flores para a mulher, Dayse da Silva Oliveira, cantora, radialista e pastora evangélica de 45 anos, com quem ele se casou dentro do presídio, em 2008.

Depois de 21 anos sem sair da prisão, tomou 1,5 quilo de sorvete. Na primeira noite em liberdade, foi com a mulher e os amigos orar em um monte. "Não sabemos ainda o que faremos no futuro. Somos evangélicos e, por isso, preferimos esperar para ver a obra que Deus fará na nossa vida", diz Dayse.

Conversão. Oliveira estava preso desde 1983. Em 2002, foi transferido para a P2 de Tremembé, no Vale do Paraíba. Era respeitado pelos presos, a maioria ex-policiais e agentes penitenciários que cumpriam pena em Tremembé. Chegou a fugir três vezes da prisão e a última captura ocorreu em maio de 1991. Convertido ao cristianismo há oito anos, tornou-se pastor da Igreja Refúgio em Cristo.

Nos últimos três anos, desde a progressão da pena, Oliveira passou a cuidar da horta da penitenciária e a pintar telas - técnica aprendida durante sua passagem pela Casa de Custódia em Taubaté, em 1996. "O Cabo Bruno morreu. Era o que ele sempre me dizia", conta o advogado Fábio Tondati Ferreira Jorge.

Durante o dia de ontem, a saída de Oliveira era aguardada pela esposa desde as primeiras horas da manhã. "Ele me ligou hoje às 6h30, mas foi tudo de repente, não planejamos nada", contou.

Segundo ela, é possível que o ex-detento conceda hoje uma entrevista coletiva. Uma rede de televisão tentou negociar um depoimento exclusivo, mas ele pediu dinheiro e a negociação não seguiu adiante.

A cantora não pretende parar seus trabalhos na igreja depois da libertação do meu marido. "Ele será pastor ao meu lado, vai assumir a igreja", disse. Dayse não soube informar se Oliveira poderá entrar em presídios para fazer as pregações, mas disse que, se ele quiser, poderá acompanhá-la.

A notícia da liberdade do marido lotou o mural de recados do Facebook da pastora. "É uma alegria que não tem medida. Nós cremos na mudança. Não conheci o Cabo Bruno, só ouvi falar. A única coisa que sei é que vou receber um homem transformado. Só o presente e o futuro nos importam. Agora é vida nova", comemora a cantora.

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