Após 21 anos, réu que matou mulher é julgado à revelia

Foragido, José Ramos Lopes Neto também atirou nos dois filhos; 'queria que estivesse aqui para olhar na cara dele', diz garota

Angela Lacerda, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2010 | 00h00

JABOATÃO DOS GUARARAPES

Testemunha do crime cometido pelo pai, José Ramos Lopes Neto, há 21 anos, quando tinha 4 anos e meio, Nathalia Just Teixeira, hoje com 25, lamentou ontem a ausência do réu no julgamento. "Eu queria que ele estivesse presente para olhar na cara dele e ver se teria coragem de negar que atirou com um revólver na minha direção, do meu irmão e do meu tio e matou minha mãe", afirmou ela, emocionada, embora demonstrando frustração.

Depois de conseguir prorrogar o julgamento por 21 anos, José Ramos Lopes Neto, de 47, teve a prisão decretada no dia 19 de maio pela juíza de Jaboatão dos Guararapes, Inês Maria Albuquerque. O réu não havia comparecido, nem seu advogado, ao julgamento marcado para 13 de maio, o que levou ao adiamento.

Para evitar nova manobra, a juíza determinou que ele fosse defendido pela Defensoria Pública e determinou a prisão preventiva. Os oficiais de justiça não o localizaram em três buscas realizadas e o réu foi julgado à revelia.

Crime. A defesa alegou legítima defesa da honra para justificar o assassinato de Maristela, que levou três tiros na cabeça ? ele não aceitava a separação. José confessou o homicídio, mas disse não ter havido intenção de ferir os filhos e o ex-cunhado. Nathalia, porém, lembra que o pai precisou se movimentar pela casa para atirar nos quatro.

Eles estavam na casa dos avós maternos ? onde Maristela e os filhos passaram a morar depois da separação, dois anos antes. Zaldo, com 2, já pronto para dormir, brincava no chão, perto de uma cômoda onde José estava encostado. Nathalia estava em cima de uma das camas e a mãe, Maristela, então com 25 anos, vestia a menina. O tio Ulisses estava na porta do quarto.

"Tudo parecia normal, José abaixava para brincar com Zaldinho e levantava, numa dessas vezes, quando ele levantou, estava com a arma. Estava de frente para mim, não lembro do barulho, do som. Foi muito rápido, coisa de segundos", diz Nathalia. "Os tiros foram sequenciados e não foi aleatório. O revólver tinha seis balas e quatro pessoas foram atingidas."

Nathalia levou um tiro no ombro direito que até hoje afeta os movimentos da mão direita e reduziu a força de seu braço. Zaldo foi baleado na cabeça. Teve o lado esquerdo paralisado e vive com sequelas mais fortes, embora tenha voltado a andar. Eles não veem o pai desde o crime.

Sentença. A expectativa era de que o julgamento fosse encerrado ainda ontem, com a condenação do acusado. Diante da ausência do réu e do depoimento de Nathalia, o Ministério Público dispensou as outras testemunhas. A defesa quis ouvir apenas o policial civil Harlan de Andrade Barcelos, que era então agente de polícia e autuou o réu em flagrante.

Barcelos disse que, quando chegou à casa dos Justs, viu que José parecia tranquilo e telefonava para o pai, o advogado Gil Teobaldo. O réu ficou preso por 1 ano e foi solto. Passou a responder ao processo em liberdade.

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