Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Após 1 ano, bairro volta a alagar em São Paulo

Vila Itaim, região do Jardim Romano, zona leste, teve 250 casas invadidas pelas águas; governos estadual e municipal se acusam

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2015 | 21h24

SÃO PAULO - Se há um lugar em que não se comemora a chegada da chuva em São Paulo, ele fica na Vila Itaim, na região do Jardim Romano, extremo da zona leste da cidade. Os moradores afirmam que os transbordamentos do Rio Tietê são recorrentes há anos. Mas fazia um ano que lá não enchia. Até que, na madrugada desta terça-feira, 17, as águas invadiram ao menos 250 casas, obrigando várias pessoas a deixá-las.

Ao tentar salvar uma geladeira, um rapaz foi eletrocutado e precisou ser levado para o hospital. Outras duas pessoas também ficaram feridas, depois de escorregar em bueiros abertos. As chuvas começaram por volta das 23h30 de segunda, e fizeram a Subprefeitura de São Miguel Paulista ficar em estado de alerta para enchentes.

Às 4 horas, novas pancadas de chuva pioraram a inundação, que invadiu casas, estragou móveis e deixou moradores ilhados. Botes da Defesa Civil transportavam as pessoas atingidas pelas ruas, trabalho que se estendeu ao longo desta terça-feira, 17, já que a água era escoada em ritmo lento.

“Eu não posso me molhar, sou diabética”, dizia a aposentada Valdenice Silva, de 74 anos, a um agente da Defesa Civil, enquanto era resgatada em um dos botes. Naquele momento, a preocupação era com a perna esquerda enfaixada por causa de uma ferida que a doença não deixava cicatrizar. A poucos metros dela, um rato morto boiava na rua e uma criança aproveitava o alagamento para fazer xixi ali mesmo. Também havia lixos, pedaços de madeira, baratas e insetos à vista.

Moradora da região há 30 anos, Valdenice diz já ter passado por pelo menos outras cinco enchentes, mas nunca havia se sentido tão atingida. “Molhou tudo: a roupa, arroz, feijão, até os meus remédios ”, conta, com a voz embargada. “Tudo que eu tinha já era de doação. Agora nem sei o que vai ser.”

Na região, boa parte dos moradores estão resignados com os alagamentos. “Começa a chover, eu já penso: ‘vai encher minha casa’”, diz a ajudante-geral Tauani Silva, de 20 anos. “Mas eu nem tiro mais os móveis. A gente já perdeu tudo tantas vezes. Depois recupera.” Com os pés na água, outra moradora chega a fazer piada. “A gente nem precisa ir para praia, é a praia que vem até a gente.”

Em 2009, uma série de enchentes deixou a região do Jardim Romano embaixo d’água por três meses. “Todo ano, a gente recebe promessa que vai melhorar, mas a situação é a mesma”, diz o eletricista José Mario, de 46 anos - 15 deles como morador do local. “Quando seca, isso tudo vira barro, cheio de rato morto, lixo... O fedor é insuportável”, diz Tauani.

Com duas crianças em casa, uma de dois meses e outra de um ano, o estudante Francisco da Rocha, de 18 anos, conta que a água sobe muito rápido. “Levantei da cama durante a madrugada e a água estava no joelho”, diz. Ele perdeu uma televisão e um aparelho de som. “A gente até quer sair daqui, mas vai para onde?”

Empurra. Em nota, tanto a Prefeitura de São Paulo quanto o governo do Estado destacaram que a região atingida pelas chuvas fica em uma área de ocupação irregular, perto do Rio Tietê. As administrações, no entanto, responsabilizaram uma à outra por atrasos nas obras de construção de diques que evitariam alagamentos no local, anunciadas em 2013.

Segundo a Prefeitura, o projeto da obra ainda não foi apresentado pela administração estadual e, sem ele, não pode retirar as famílias da área. “Se a população for retirada muito antes da realização das obras, outras famílias ocuparão aquelas habitações”, diz. Por sua vez, o governo do Estado diz que está aguardando o “reassentamento, pela Prefeitura, de 280 famílias de áreas invadidas” para iniciar as obras. Também afirma que o projeto básico está pronto e foi entregue ao Município em 2013.

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