TryJimmy/Pixabay
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Apesar de recorde de mortes pela polícia, número de prisões cai em SP

Para prisões em flagrante, por exemplo, a queda foi de 21,7%, reduzindo de 10.912, em abril de 2019, para 8.545, neste ano

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2020 | 05h00

Ao mesmo tempo em que São Paulo atingiu patamar recorde de mortos em supostos confrontos em abril, já com a quarentena contra o novo coronavírus em vigor, as polícias prenderam menos pessoas, tiraram menos armas ilegais das ruas e até registraram queda no número de ações contra o tráfico. Embora admita ver com “preocupação muito grande” a alta na letalidade, a gestão João Doria (PSDB) diz que os casos de morte aumentaram porque os agentes estão levando menos tempo para chegar à ocorrência e que criminosos estariam “mais audaciosos” durante o isolamento social.

Dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública (SSP) mostram que São Paulo registrou 119 casos de “mortes decorrentes de intervenção policial” em abril, na soma das ocorrências envolvendo as Polícias Militar e Civil. Em comparação com o mesmo período do ano passado, o índice subiu 52,5% e atingiu o mais patamar para o quadrimestre desde o início da série histórica em 2001.

Em contrapartida, os 13 indicadores de produtividade policial, listados no site da SSP, pioraram no mesmo período. Para prisões em flagrante, por exemplo, a queda foi de 21,7%, reduzindo de 10.912, em abril de 2019, para 8.545, neste ano. No total de prisões, incluindo casos de mandados judiciais, o recuo foi de 16.434 para 10.080, ou 38,6%.

As polícias também apreenderam menos armas de fogo (22%) e recuperaram menos veículos (43,6%) durante a quarentena. Por sua vez, o número de atendimentos a ocorrências de tráfico de entorpecentes caiu 16,4%, passando de 4.082 para 3.410 no mês de abril, enquanto a quantidade total de inquérito policiais reduziu 26%, de 33.333 para 24.657. 

“Naturalmente, se esperava que a produtividade das polícias cairia durante o período da quarentena, até por causa do próprio isolamento social e da queda do número de crimes”, diz o pesquisador Ivan Marques, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Agora, causa bastante espanto que, mesmo com o Estado praticamente paralisado, a polícia tenha conseguido aumentar os índice de letalidade. Isso não é normal em uma sociedade que está ‘trancada’.” 

Para Marques, como a PM está envolvida na maioria dos casos, a discussão de estratégias para reduzir a letalidade deveria passar pela análise os resultados de cada batalhão separadamente -- dados que não são tornados públicos pelo governo. “O que gente sabe, por teoria e por conversas empíricas com policiais, é que a liderança é quem dá o tom da tropa”, afirma. “A chave da solução é identificar em quais unidades a violência está sendo recorrente.”

Ex-secretário nacional de Segurança Pública, o coronel reformado da PM José Vicente Filho diz ainda ser cedo para avaliar como os crimes vêm acontecendo -- e, portanto, como as polícias têm respondido -- durante a pandemia. “Estamos aprendendo a entender essa dinâmica ainda”, diz.

“Mesmo com a queda do índice de roubos, ainda tem muito roubo acontecendo (14.057 casos registrados, ao todo), afirma Vicente Filho. “Como houve afastamento das pessoas das ruas e redução drástica do trânsito, as viaturas estão mais próximas do problema, então a resposta é mais rápida e o confronto acaba acontecendo. Acho esta hipótese a mais plausível.”

Produtividade da PM caiu porque crimes diminuíram, diz coronel da PM

Ao Estado, o secretário executivo da Polícia Militar, o coronel Alvaro Batista Camilo, diz que a produtividade das polícias caiu porque os crimes também reduziram. Ao mesmo tempo, afirma que a letalidade subiu porque os agentes estariam respondendo mais rápido às ocorrências.

“Hoje, raramente você cruza três, quatro quarteirões sem encontrar uma viatura. Há mais policiais nas ruas porque uma série de atividades que envolviam a PM não está acontecendo, como ronda escolar, escolta de preso, jogos de futebol, shows, feiras”, diz. “Em paralelo, houve um plano da PM de reforçar policiamento em áreas de comércios que continuaram abertos durante a quarentena, como farmácias e mercados.”  

Para Camilo, foi a “pronta resposta” que resultou em mais confrontos no Estado. “A polícia está chegando rapidamente aos locais, pega o 'quente' da ação. E os criminosos, que estão mais ousados, têm uma pendência natural em reagir." Indagado, ele não soube responder qual o tempo médio de resposta a uma ocorrência durante a quarentena. “Acompanhei um caso na capital que a viatura chegou em 1 minuto e 30 segundos.”

Ainda segundo o secretário da PM, no entanto, o objetivo da polícia é prender um suspeito -- e não matar. “O confronto não é desejado, a morte não é desejada, a secretaria tem rigor em acompanhar caso a caso”, diz. “Há preocupação muito grande com a letalidade, porque sempre são vidas. O aumento da letalidade é um risco para os dois lados: para o criminoso e também para o policial.”

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