Taba Benedicto/Estadão
Fachada coberta de vidro do edifício Vitra, lançado em 2015, foi pioneira entre residenciais da capital paulista Taba Benedicto/Estadão

Apartamentos ‘pele de vidro’ ganham espaço e adaptam estética corporativa

Prédios residenciais e de uso misto em centros financeiros são erguidos com arquitetura inspirada nos vizinhos corporativos, com uso abundante de vidro reflexivo na fachada; em São Paulo, tendência sobressai no Itaim Bibi e entorno

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 05h00

Para quem vê de fora, trata-se de mais um prédio espelhado recheado de lajes comerciais e escritórios. Mas nem sempre se trata disso. Praticamente padrão no setor corporativo, o uso de vidro reflexivo na fachada tem ganhado espaço em edifícios com apartamentos, especialmente nas regiões em que os “pele de vidro” já são predominantes, como no entorno do Itaim Bibi, na zona sul paulistana. E vai chegando aos poucos a outras áreas do País, tanto em capitais quanto no litoral.

A executiva Sandra Bernardo, de 45 anos, lembra que a fachada majoritariamente envidraçada do edifício onde vive chamou a atenção quando foi conhecê-lo. “Pensei: ‘que prédio legal’. Só sabia que era residencial porque tinha visto na internet”, conta. “Morei no Chile por dois anos, (o maior número dos bairros que frequentava, em Santiago) era totalmente envidraçado, que nem a Faria Lima.”

Ela diz que a estética “mais clean” foi um dos pontos que chamou sua atenção, assim como a vista ampla para o pôr do sol paulistano. A fachada envidraçada até lembra a do edifício onde trabalha, sede brasileira de uma multinacional. “Tiro várias fotos da sacada, posto quase todo dia. É uma vista livre, dá para ver as torres gêmeas”, comenta, referindo-se às São Paulo Corporate Towers, um dos símbolos arquitetônicos do entorno, conhecidas pelas fachadas espelhadas.

Esse tipo de estética é inspirada majoritariamente em projetos europeus e norte-americanos, que originalmente visavam um maior aproveitamento da luz. Ele também se espalhou por outras capitais estrangeiras, de Dubai à Cidade do Panamá, assim como ganhou espaço em construções com finalidades diversas, como hospitais, shoppings, supermercados, escolas e lojas.

Mais do que isso, tornou-se praticamente uma das principais identidades visuais de centros financeiros mundo afora, como as regiões La Défense (Paris), Central Business District (Cingapura e Toronto), Loop (Chicago) e Porta Nuova (Milão), entre outras.

Antes mais restrita ao uso corporativo, a presença mais forte em residenciais costumava se restringir a grandes janelas, varandas fechadas e assemelhados até anos atrás. Assim como em São Paulo, contudo, esse modelo tem mudado também em cidades como Curitiba e Manaus.

O destaque no cenário nacional é Balneário Camboriú, no litoral catarinense. Principal polo de arranha-céus do País, muitos dos prédios concentrados à beira-mar têm ao menos a fachada frontal (voltada para a orla) coberta de vidro.

O edifício paulistano que apostou mais fortemente nessa proposta entre os de apartamentos é o Vitra, de 2015. Anúncio dele em uma imobiliária para público de alta renda ressalta que é o “primeiro residencial de São Paulo 100% em pele de vidro”. Com projeto assinado pelo arquiteto polonês Daniel Libeskind, como seus pares subsequentes, ele se diferencia de vizinhos corporativos por não ser selado e, portanto, permitir a abertura das janelas.

Nos anos seguintes, ao menos outros oito projetos com aposta forte no material foram entregues ou lançados na região, incluindo outro ligado a um escritório estrangeiro (do italiano Paolo Pininfarina). Todos atendem a um público de alta renda, encabeçados por incorporadoras tanto de maior porte, como a Cyrella, quanto de experiência mais recente no setor, como a Emoções.

Os anúncios costumam destacar justamente as características do visual. Um no Itaim Bibi, por exemplo, chama atenção para as “grandes fachadas translúcidas em pele de vidro, que proporcionam aos moradores pontos de vista privilegiados”.

Sócia de uma administradora de apartamentos para locação na região, a We Home, Virgínia Cavalheiro considera que esse tipo de edifício reúne características que atraem os clientes. “Essa questão da arquitetura, de decoração, da vista são relevantes, fazem parte do pacote”, afirma. Mas em parte dos imóveis, pela alta incidência solar, a presença de cortinas blecaute se torna essencial para garantir a privacidade, explica.

Uma das principais referências em edifícios revestidos de vidro, o escritório aflalo/gasperini também começou a desenvolver projetos com essa proposta para prédios com apartamentos (residenciais ou de uso misto). Sócia diretora na empresa, Grazzieli Gomes acha que o visual considerado “moderno, tecnológico e atemporal” é um dos aspectos que explicam o interesse. “Um projeto com um único material, dependendo da volumetria, fica mais minimalista e limpo.”

Ela destaca, contudo, que não considera ser um visual que se adeque a qualquer lugar. “Projetos residenciais, em sua grande maioria, já possuem vidros transparentes em seus peitoris de terraço. Revestir um prédio inteiro em vidro tem impacto principalmente em custo, o que em geral é difícil de viabilizar em empreendimentos puramente residenciais", argumenta.

"Os vidros evoluíram bastante, hoje são todos de alta performance, com controle de incidência solar, grau de sombreamento, através de películas que ficam entre as placas de vidro colada. Eles deixam passar luz e barram o calor. O avanço da tecnologia deu mais liberdade para exploração do material.”

Pontos-chave

  1. Estética corporativa: Fachadas cobertas de vidro reflexivo se tornaram padrão na arquitetura corporativa, virando a identidade visual de centros empresariais em todo o mundo.
  2. Setor residencial: No Brasil, ganha espaço em edifícios com apartamentos, geralmente para o público de alta renda e em centros financeiros, como o paulistano Itaim Bibi.
  3.  Vista e aparência clean: Moradores e profissionais do setor dizem que a estética clean e vista ampla são principais atrativos, assim como ter ares tecnológico e atemporal.
  4. Impacto Ambiental: Uso amplo do vidro na fachada é criticado por especialistas e ativistas pelo alto consumo de ar condicionado, potencializar ilhas de calor e pôr aves em risco.

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Impacto ambiental do uso extenso do vidro em fachadas preocupa especialistas

Construções 'pele de vidro' são associadas a uso maior de ar condicionado, colisão de aves e potencialização de ilhas de calor

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 05h00

Embora esteja hoje mais tecnológico, o vidro utilizado em grande escala em fachadas na construção civil ainda preocupa especialistas pelo impacto ambiental. A situação se torna mais evidente em um contexto em que as mudanças climáticas já enfileiram registros de calor recorde em cidades brasileiras, a exemplo do que viveu São Paulo em outubro deste ano

“No contexto brasileiro, tal fato torna ainda mais evidente a necessidade de um projeto arquitetônico pensado e adequado para cada edifício e localidade”, pontua a arquiteta Mônica Marcondes Cavaleri, pesquisadora sênior do Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética (Labaut) da Universidade de São Paulo (USP).

“O uso indiscriminado de vastas superfícies envidraçadas nas fachadas, muitas vezes sem aberturas para ventilação natural e sem proteções solares, pode ser um agravante para o conforto térmico dos usuários.”

Ela destaca que a elevada incidência solar que essas fachadas geralmente têm geram uma alta demanda por ar condicionado, aumentando o consumo de energia. “Essas situações podem ser previstas no projeto. Diferentes soluções podem ser testadas, com estudos avançados e integrados de iluminação natural e desempenho térmico.”

Essa discussão também ocorre no poder público. Em 2019, por exemplo, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, chegou a falar em banir novas construções em vidro e aço pela contribuição que teriam ao aquecimento global. Por aqui, uma proibição do tipo está em vigor em Santos (SP) há três anos.

Professora de Conforto Ambiental na Universidade Mackenzie, a arquiteta Erika Ciconelli de Figueiredo destaca também a necessidade de utilizar películas nas fachadas de vidro para evitar a colisão de aves. “É um problema tão grave quanto o do ar condicionado”, reitera. “Aqui, esse assunto é pouco falado. Lá fora é muito mais, especialmente nos Estados Unidos e no Canadá.”

Ela lembra que, na arquitetura residencial, geralmente o uso do vidro costuma ser equilibrado com áreas opacas e elementos de proteção solar, como varandas. “A transmissão luminosa alta faz com que as pessoas sejam obrigadas a fechar as persianas e cortinas”, comenta. Outro ponto é que, ao refletir o calor para fora, o vidro pode aumentar a temperatura no entorno, potencializando ilhas de calor se combinado a outros elementos.

Segundo a professora, há opções tecnológicas que minimizam essas questões, mas, pelo custo elevado, têm menos espaço no País. “Hoje em dia, a arquitetura está muito melhor nesse ponto de vista, bem melhor do que cinco, dez anos atrás.”

Já a arquiteta Cristina Caselli, autora da tese de doutorado Fachada de Edifício Residencial em Vidro no Século 21: Clima, Conforto e Conservação de Energia, lembra que existe certo fascínio pelo material na arquitetura, especialmente por parte dos consumidores. “Tem de ter muito cuidado com as questões técnicas, as normas de desempenho. Cada região do Brasil tem diretrizes determinadas para o seu clima”, argumenta.

Ela considera que esse tipo de proposta ganhou mais espaço no País a partir do momento em que investir em sistemas de refrigeração e ar condicionado se tornou mais barato. “O vidro aqui também é um material que tem fácil disponibilidade”, comenta. “Tecnicamente, tem de ter cuidado. Cada pavimento tem um trabalho diferente em relação ao sol.”

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