Aos 81 anos, Felisbelo quer ser imortal

Eterno candidato à ABL, ele escreveu 606 livros, bem mais que 'esse Paulo Coelho'

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h00

De camisa azul, aberta até a dobra da barriga, com uma corrente prateada pesando no pescoço, de calça bege e tênis, o suor encharcando sua testa na tarde quente da periferia de Salvador, Felisbelo da Silva é puro devaneio. Imagina-se sustentando um fardão verde-escuro de veludo, bordado com folhas de ouro, um chapéu preto com plumas brancas e uma espada, tomando chá no Petit Trianon, no Rio de Janeiro, discutindo profundidades. Imagina-se imortal.

Belo tenta há mais de duas décadas se eleger para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Seguia para sua décima candidatura, agora para a vaga deixada por Moacyr Scliar, da cadeira 31. Mas, mesmo com o sonho da imortalidade tão pungente e com tanta experiência nas burocracias para ser eterno, perdeu o prazo da inscrição, que ia até dia 31 de março. "Agora, vou ter de esperar outro imortal morrer", resigna-se, com uma risadinha.

Sua plataforma à eternidade sempre foi defendida, inicialmente, com base no quesito volume. Belo diz ter 606 livros - "mais do que qualquer escritor brasileiro da história". No pequeno apartamento atrás da Igreja do Bonfim, insiste que quem duvidar esteja à vontade para contar um por um. Empilhados numa prateleira de metal, dessas de despachante, há livros publicados por grandes, médias e pequenas editoras como Nobel, Salesiana, L. Oren, Luzeiro, Ibrex.

Mas a maior parte de sua obra está mesmo em papel sulfite, em impressões caseiras ou de pequenas gráficas, com pinta de cordel. "Busco há mais de 30 anos apoio para publicar meu Grande Dicionário de Gírias Brasileiras, que tem 500 páginas, e não consigo", lamenta Belo. De fato, reportagens da década de 1970 nos jornais paulistas já falavam desse compêndio de expressões que Belo organizou.

Falavam também de outros aspectos de sua produção. Belo é sergipano de Propriá, mas viveu por mais de 30 anos em São Paulo, onde foi investigador de polícia. O policial escritor fugia das ocorrências de rua com dores de barriga inventadas e ficava para trás para escrever. "Já me dedicava tanto aos guias sobre como identificar pilantras quanto aos contos pornográficos, que publicava com pseudônimos", lembra Belo, que também é compositor de 215 músicas e já ganhou até disco de ouro, com a balada brega Placa de Venda, cantada pelo parceiro Marcelo Reis.

Conteúdo. Alguns dos títulos de sua variada obra, com seu nome oficial, Felisbelo da Silva, são Contos do Vigário - Prevenções contra Vigaristas, Linguajar dos Marginais e Como Redigir Petições, Procurações, Contratos, Distratos, Requerimentos e Atestados - este, publicado em 1978, é um best-seller da Nobel, com mais de 75 mil cópias vendidas. Com pseudônimos, os títulos ficam mais quentes: Sexo e Variações e Kenny, o Furor Sexual (William Parckson), Sexo, Delírios e Tormentos (Jean Flaubert) e Loucuras do Sexo (Catherine Renoir). Na prateleira de Belo estão ainda livros de piadas, de contos infantis, de pensamentos. E muitos livretos de poesia - todos são sonetos, dedicados à Bahia, a sua mãe, Urçulina, ou a brasileiros célebres como Pelé, Lula, Dona Canô, José Sarney e Irmã Dulce.

"A poesia é o que mexe com a minha alma. E na prosa eu tento ser empolgante, misturar vários assuntos", diz o autor sobre seu estilo, que pode ser definido como popular. Para quem acusa Belo de querer ser imortal só pela quantidade de livros, ele tem resposta pronta: "Esse Paulo Coelho aí que me venceu só tem uns 12 livros. Além disso, ninguém nunca me disse que o que eu escrevo é ruim." Aliás, continua, "pior é esse tal de Drummond, que escreve uma poesia sobre uma pedra e é chamado de maior poeta do Brasil. É poesia estúpida, não moderna", esbraveja o sergipano sobre o mineiro, que nunca quis ser imortal.

Protocolo. Felisbelo ainda sustenta alguma esperança de eternidade, mas já quis desistir algumas vezes: "Me inscrevo, não tem um protocolo, nunca nem confirmaram se eu estava mesmo inscrito."

A ABL não quis comentar as críticas de Belo sobre os critérios da eleição e os escritores já imortalizados. O titular da cadeira 34, João Ubaldo Ribeiro, comentou: "Já vi o nome de Felisbelo por aqui. Em época de eleição, a correspondência da ABL se avoluma muito e não dá para ver tudo com vagar. Quanto aos membros da Academia, sabe-se que a nossa se inspirou no modelo francês e acolhe, além de escritores, grandes nomes em outras áreas, como a política, a clerical, a militar e, mais recentemente, a cinematográfica. Agora, quem merece ou não estar na Academia é um dado que varia conforme o observador."

Mesmo fora da eleição para a cadeira 31, Belo diz que seguirá tentando. É difícil duvidar. Com 81 anos, saúde férrea, sem vícios ou mulheres que possam lhe enfraquecer, sem sequer usar óculos e com um pai que morreu aos 103 anos, a imortalidade de Felisbelo da Silva e de sua obra ainda está por se decidir.

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